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mulheresqbebem@gmail.com

28 de nov. de 2010

Órfã





















Ainda que me sangrem como um leitão
Virem minhas tripas
Decepem minha cabeça, roam meus ossos.

Estraçalhem minha cabeça
com um golpe forte e preciso
e arranquem - um por um - todos os membros do meu corpo.

Ceguem meus olhos
cortem minha língua
torçam meu pescoço
queiram me seviciar com um mastro.

Meu corpo estará em torpor
Já nada me atinge...

Sem você, eu sou a dor...

24 de nov. de 2010

Oxiúros lunáticos


a sobra nutre o solo estéril
do coração que arqueja
cevando vermes poetas
baldios como poemas,
sintéticos na imensidão

tripudia por aresta defuntas,
o calo da poesia,
onde encontra voz
na mata por fora da vida,
no grito do grilo espesso,
no gracejo do percevejo,
o verme chora... esperando lua

23 de nov. de 2010

Blindex – O mito (Capítulo final)


No dia seguinte ao fatídico evento, em que um contrato de P.A. (Pau Amigo) foi estipulado, meu sócio foi me buscar at home. O carnaval estava próximo e a folia carioca bombava nos blocos do Rio de Janeiro. Todos os amigos estavam presentes. No auge de minha felicidade, não contente em brindar minhas já conhecidas homéricas estripulias à-la-mode-tradicional, ou seja, consumindo uma leve cevada, inventei de beber tequila.

O problema é que não tinha sal, não tinha limão, não tinha sequer um recipiente adequado para depositar o líquido etílico. E lá fui eu, encher um copo plástico com a suntuosa bebida, para virar tudinho de uma vez, num braço só. Acabou o bloco, fomos para uma festa, e eu continuei bebendo. Acabou a festa, nós fomos para outra festa, e eu ainda bebendo. Essa última, na casa de um grande amigo nosso, que por já ter sido citado em alguns posts aqui, merece ser nomeado. Como ele é o ser mais sujo e transante que conheço nesse mundo mundano, o alcunharei de El Copulador.

Bem, admito que quando cheguei à casa de El Copulador, já não era detentora de minhas plenas faculdades mentais. Lembro apenas que alguns dos cachaceiros e cachaceiras que passaram o adorável dia conosco iam dormir no recinto. Nesse ínterim, eu estava no quarto batendo um animoso papo com uma jovem loira gostosona, que era a fudeca do dia de El Copulador. Depois disso, a lembrança que eu tenho em minha mente é: eu, no banheiro de El Copulador, concretizando o contrato com meu P.A. – ou seja, dando freneticamente -, ao que, em uma manobra sexual sem sucesso, dei de cara com a porta do Blindex.

PÁH! SHIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII! Esse foi o som que embalou nossa primeira noite de intenso amor. O vidro quebrou todinho em cima da gente, o que causou pomposas escoriações em nosso corpo. Foi um banho de sangue. A loira gostosona, já dormindo, ouviu o barulho e entrou em desespero, achando que havíamos morrido lá dentro. Já El Copulador, muito preocupado com nossa saúde, sequer abriu os olhos, apesar do estrondo que foi ouvido pela casa toda, e se limitou a dizer um singelo “eles estão bem”, frase embargada em uma voz deveras sonolenta.

Meu amigo P.A., desejoso em dar uma explicação sobre o ocorrido, saiu pelado, de pau duro, com o braço todo ensanguentado, dizendo: “Quebramos o seu blindex”. Após, voltou para o banheiro e, apesar de o chão estar coberto de cacos de vidro, continuamos copulando sem parar. Não vou nem dizer que além do blindex, quase arrebentamos a pia, que também foi palco de nossas fanfarronices. Também nem vou citar que, como no dia anterior, eu ainda estava menstruada. E muito, diga-se de passagem.

Final da história: banheiro todo quebrado, marcas de sangue por todos os cantos, cacos de vidro espalhados pelo chão, pia com parafusos faltando, artigos de higiene todos fora do lugar. Imaginem uma digna cena de filme de terror. E como outros amigos – muito linguarudos – estavam presentes nesse peculiar dia, o Caso Blindex entrou para os anais da história, sendo até hoje comumente citado, quase um ano após o ocorrido. Inventaram musiquinha e tudo. E o pior... eu não me lembro de praticamente nada, mas nada mesmo, sequer faço ideia de como é que a gente foi parar no banheiro.

O que importa é que, depois disso, meu amigo P.A., que hoje se autodenomina Sr. Blindex, resolveu meus problemas várias outras vezes. Mas o mais impressionante, é que em TODAS essas vezes alguma merda estrondosa aconteceu. Foi um tal de capô de carro ficar todo amassado, velhinhos exigindo que parássemos de fornicar em público, sexo na porta da casa dos outros às 9hs da manhã... e apesar de tantas histórias toscas, nossa amizade em nada mudou.

Hoje, meninas, podem ficar tranquilas. Nossos órgãos vaginais e penianos não têm mais nenhum tipo de contato. Não temam com a minha presença, não vou mais surtar exigindo que ele me leve embora porque estou com muita vontade de dar, independente de ele estar acompanhado ou não. Nutro por esse distinto rapaz um amor gigante, ele é meu amigo de verdade. Só que, amizade por amizade, chega de sexo amigo, preciso tomar vergonha na cara e dar minha pepequinha para alguém que não esteja habituado às minhas crises bipolares.
E moral da história: Nós somos a prova concreta de que AMIGOS PODEM TRANSAR, SIM. Basta saber administrar o negócio direito.

22 de nov. de 2010

Blindex - O mito (Parte I)


Sou uma menina muito bem resolvida. Estava sei lá há quantos séculos sem dar uma boa transada, e como não consigo ficar muito tempo sem concretizar o ato físico do amor, decidi apelar para um sexo sem compromisso com um P.A. (Pau Amigo). O problema é que nem isso eu tinha, questão facilmente resolvida, levando em conta toda essa minha estonteante beleza mourena.

Foi mais ou menos assim. Um amigo por quem sempre nutri um grande carinho fraternal – e que, por um acaso do destino, eu já havia dados uns beijinhos bestas, logo assim que nos conhecemos -, me ofereceu uma carona pós-festa. Levemente alcoolizada, para variar, adentrei ao veículo automotor, sem imaginar que qualquer pensamento malicioso se aproximasse da massa cefálica de meu gentil companheiro.

Eis que durante o trajeto à minha humilde residência, ele começou a demonstrar leve inclinação ao meu ungido corpinho. Ao que eu lembrei que ele morava na mesma rua em que a festa ocorria, então, por que raios estava me levando para minha casa, localizada do outro lado do continente? Outros amigos que moram próximos de mim também estavam indo embora, eu não tinha problemas de retorno ao lar. Subitamente, senti uma leve maldade no que outrora fora uma inocente carona.

Na hora de me deixar, em vez de apenas parar o carro para eu descer, ele estacionou. E-S-T-A-C-I-O-N-O-U. “Hum... ele tá querendo um assunto”, pensei eu, cá com meus botões. “Como não peguei ninguém hoje, vou dar uns beijinhos descompromissados nesse indigente”. Fiz o meu papel e, muito franca, agarrei mesmo.

Flashback de contextualização
Ele sabe que sou dessas que quando querem, fazem por onde. Afinal, a gente só tinha ficado uma vez antes porque, como o tapado era um enrustido que não tinha capacidade de revelar toda a chama do amor que queimava em seu coração por mim, eu acabei tomando uma atitude. Eu é que não ia ser maluca de virar BEFIF (best-friend-de-infância-forever) de uma pessoa que eu queria dar uns beijinhos, sem antes dar esses beijinhos. Nossa relação já estava fadada à pura amizade, só que eu odeio sentimentos encubados. Aproveitei um dia em que nosso sangue tinha na composição cavalares doses de teor etílico e parti para o ataque. Não, os homens não são os únicos sujos que se aproveitam da bebedeira alheia.

O contrato
Voltando à carona-maliciosa-outrora-inocente. A gente deu uns beijinhos e tal, e como ele sabe que sou cheia de frescura, nem se engraçou muito – leitores, é sério, sou meio sandyzinha, mesmo. Para deixar alguém colocar a mão nos meus peitinhos é um parto, apesar de já não ter lá mais 15 aninhos. Juro que eu não queria ser assim, mas eu sou. Bem provavelmente deve ser por isso que eu quase nunca pratico o ato da fornicagem.

Enfim. Não deu muito tempo e ele queria ir embora, ao que rolou o seguinte diálogo:

- Ah, tá. Você é muito espertinho, né? Só porque eu sou só sua amiga, você já tá querendo ir embora?
- E você tá achando que só porque é toda bonita desse jeito, vai ficar me enrolando?

Plin. Caiu a ficha. Ele ia ser meu P.A, como eu não havia pensado nisso antes? Apesar de sermos muito amigos, ainda não tínhamos chegado àquele nível “não foderíamos de jeito nenhum”. Então, muito direta como sou, fiz a seguinte proposta:

- Poxa, amigo, eu tô há maior tempão sem transar. A gente podia fazer um sexo sem compromisso, sem MUDAR EM ABSOLUTAMENTE NADA NOSSA AMIZADE. Eu só quero FUDER. Aí, sempre que eu precisar, eu te aviso e a gente transa. Mas continuamos sendo SÓ AMIGOS. Eu continuo pegando meus namoradinhos e você continua com suas gambiarras da vida, como se nada tivesse acontecido.
- Já é, vamos transar agora!
- Agora não, tô pingando (eufemismo para menstruada).
- Porra, tu fica 20 mil anos sem dar, e quando decide dar, você tá menstruada?
- Pois é. Deixa pra outro dia. Mas eu vou avisar de novo, a gente vai só transar, eu quero só sexo. Se nossa amizade for mudar alguma coisa por causa disso, então eu não quero.
- Pode deixar, não precisa ficar repetindo, eu não sou igual a esses psicopatas que você fica.

Como um bom amigo, eles estava acostumado a ouvir minhas peripécias nos caminhos da paixão, e sabia que, não sei por qual motivo, só atraio homem doido, desses que te pedem em casamento assim que te conhecem. Nunca vi ter um imã para gente maluca como eu. Deve ser por isso que eu tenho essa total aversão a dar minha refinada flor para pessoas que não façam profunda parte do meu círculo social. Vai que eu sou fortemente psaicopateada? Tensão.

Mas, enfim. O que importava é que nosso trato estava feito: amizade com direito à regalias especiais. Eu – aleluia! – ia dar uma cruzada gostosa, descompromissada, sem riscos de estresses posteriores.

Fim da primeira parte. Amanhã, cenas do capítulo final.

21 de nov. de 2010

Perdida no País das Maravilhas


A certidão de nascimento poderia antever o futuro. O pai, fascinado pelos livros, registrou a filha com o nome de uma das maiores heroínas da literatura nacional. Cresceu lendo Machado de Assis, José de Alencar, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa. No início, o aglomerado de folhas encadernadas com capa grossa eram apenas presentes. Com o tempo, passou a comprar seus próprios exemplares, e se apaixonou pela linguagem simples de Garcia Marquez, pela poesia de Clarice, profundidade de Dostoiévski, questionamentos de Vitor Hugo, obsessões de Proust.

Sua vida se resumia a ler, ler e ler. Ela se transformava e se reinventava naquelas personagens, vivia suas emoções, decepções, aventuras. Tudo o que não era, poderia ser enquanto lia. E mergulhava assim, como uma menina que se perde na tentativa de seguir um coelho; passava dias e dias sozinha, como um jovenzinho em seu planetinha, feliz por ter sua flor para regar. Era tragada por cada uma daquelas linhas, engolida no torpor da fantasia.

Queria tanto uma vida diferente de tudo o que vivia, que para encontrar um pedacinho da paz que nunca conheceu, preferiu, sem perceber, viver as vidas inventadas por tantos outros, quem sabe tão atormentados quanto ela. E quando apenas ler já não mais bastava para satisfazer sua fome, começou a escrever. E como escrever passou também a ser pouco, começou a rabiscar o papel com muita fúria, enquanto sangravam seus dedos, sagrava a tinta azul.

E quando rabiscar se tornou pouco, ela saiu para viver, mas a vida também era muito pouco, pouco perto de toda a fábula que criava, que lia, que queria. Precisava de um mundo onde sempre experimentasse o mais extremo de todas as sensações, presenciasse as mais inusitadas situações. Mas o que via, ali no real, era muito pouco. Era preto e branco demais. Mesmo quando agia de uma maneira que era vista como anormal por todas aquelas pessoas, normais demais no seu modo de ver. Ela simplesmente não se importava mais com julgamentos.

E mesmo sendo tudo em sua vida tão absurdo, tão intenso para tanta gente – mas nunca o suficiente para ela -, não desistia, e nessa caminhada ia se perdendo entre o real e o imaginário. Suas letras já não bastavam. Mesmo os heróis da ficção, representavam pouco agora. Ela precisava de mais, e nessa ânsia foi criando uma personagem de si mesma, baseada nos trechos mais expressivos de todos os livros que havia lido, durante toda sua vida.

Foi assim que Capitu enlouqueceu.

18 de nov. de 2010

poética das cabanas


a folha espera pingar as letras
só caem gotas de chuva

a flor espera borboletas
a pedra, besouro de asas escuras

o galho menstrua entre as hortênsias

um sêmen de silêncio inunda
o útero barulhento do poema

poema feito em parceria com fred girauta

17 de nov. de 2010

Atriz


Por alguns segundos ficou estática, enquanto a multidão observava. Mas saiu do torpor e explodiu como um grito a cada frase encenada, cada sentimento fingido. Sabia que não havia um único olhar naquela sala que não fosse para ela, e ficava assim, envolvida por uma sensação como estivesse drogada. Se afogava em um prazer não comedido.

Uma santa, uma prostituta, uma louca. Reinava naquela peça, enfeitiçava uma plateia que aplaudia e vaiava. Egoísta, orgulhosa ou ingênua, quem sabe, não dividia a luz dos holofotes, que de tão fortes, sequer permitiam enxergar quem a admirava. Ela não tinha ideia, não importava se faria diferença ter.

Pouco sabia além de que o público às vezes a odiava, às vezes a amava, mas sempre ficava extasiado com sua intensidade ao se expressar. Mas do que adiantava toda aquela paixão falsa, exagerada, se ela estava sozinha, perdida em um palco de tamanho desproporcional aos seus sonhos roubados, esperanças esquecidas, verdades fingidas, realidades destorcidas?

Ela e as palavras que tanto interpretou, insistiu, berrou.

Mas ninguém percebeu, ninguém viu.