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27 de ago. de 2012

O amargo e o doce do prazer


Umas dez latas de cerveja, alguns goles de energético
Balas, doces. Uma busca por cafeína, algo que mantenha os olhos abertos
Bem abertos
Uma roupa no canto e outras jogadas pelo caminho
Desejos demais. Mal se sabe o que aconteceu. Foi? Não foi?
Lençóis fora do lugar e o gosto amargo da ressaca na boca
Suposição

Noite após noite com uma disposição de fazer inveja ao mais recatados
Satisfação é a palavra chave
Doces azedos, pirulitos açucarados e insulina suficiente para iniciar a manhã
E mais uma vez. De novo. Ou não
Para saciar ou para relembrar, tanto faz
A vontade em provar é mais intensa que nunca
O desejo pelo amargo e o doce do prazer


28 de jul. de 2012

Estupro mental na tenra infância



Já prometi a mim mesma que, caso algum dia eu tenha uma filha, farei o máximo para que ela não seja contaminada por uma dessas histórias infantis fascistas, em que uma linda princesa vive sua vida em função da espera pelo pênis-salvador-que-irá-livrá-la-de-todos-os-males-terrenos. Sim, porque para encontrar a salvação, o príncipe bonitão é a única opção. Você só deve se manter a mais linda do reino e esperar com o rabo sentado um macho vir te salvar. De preferência limpando, cozinhando e lavando um castelo cafona.

Para ficar ainda mais romântico, a mocinha renegada, linda e pobre, ainda sofre todo o inferno causado por uma maluca sociopata, que em geral dava a ximbica para o pai da princesa enquanto vivo.  Afinal, se a mulher dava para o seu pai, mas não era sua mãe, com certeza é uma puta de uma vaca. O extremo oposto da princesa, poço de bondade e ternura. Sim, porque a natureza humana é exatamente divida dessa forma: existem pessoas que são o exemplo de tudo que é correto e representam o bem, e pessoas que abrigam apenas a maldade em seu amargurado ser. Ou é do bem, ou é mal, nada de meio termo. Tipo aquelas baboseira que, depois de passar da fase dos contos infantis, os adolescentes aprendem assistindo Malhação, simpática programação exibida todas as tarde na televisão. Patético é pouco. Isso é esquizofrenia total.

Mas voltando aos contos de fadas. Depois de todo esse drama, o amor tudo supera. E princesa e príncipe se casam (porque tem que ter um casamento no final) e vivem felizes para sempre. FELIZES PARA SEMPRE! Agora alguém só me explica que porcaria é essa de felizes para sempre? Sim, porque como todos nós sabemos, todos os relacionamentos terminam felizes para sempre depois do casamento, certo? Nada mais correto do que reforçar essa ideia nas mentes e corações infantis, certo? Pelo amor, essas histórias deveriam ser proibidas para crianças, que crescem escutando (e muitas acreditando para sempre, mesmo que inconscientemente) nesse tipo de baboseira. Meninas acreditam que devem, de fato, ser lindas princesas, durante toda sua bela vida, que obviamente, está destinada à felicidade plena, exatamente como condenam todos os contos de fadas.

E se por algum mero acaso uma infelicidade do destino não te proporcionar a beleza única e cativamente que vai arrebatar os corações de todos os falos pulsantes, fazendo com que os moçoilos caiam aos pés de sua vagina virgem (sim, porque a xeninha não pode ser deflorada para a história ser completa), não se preocupe, a indústria de plásticas, cosméticos e pílulas milagrosas tem o poder de te transformar (ou quase) em um pitelzinho de primeira linha. Sério, é capaz de, depois de uma boa transformação, você se olhar no espelho e sequer se reconhecer. Olha que legal. Virar uma princesa igual a dos contos de fada é uma questão apenas de dinheiro, querida. E para a maioria de nós, reles mortais, muito dinheiro. Se você não tem, ah-ha, se fode aí, baranga.

Brincadeira de criança
A verdade é que nós mulheres sofremos lavagem cerebral desde o primeiro dia em que somos cuspidas a essa malfadada existência. Recebemos bonecas de presente de aniversário, para já irmos aprendendo a cuidar com maestria dos projetos bizarros de bebês. Mas vai a menininha querer brincar na rua, correr, soltar uma pipa, para não surgir aí o problema? É um tal de mãe histérica berrando “isso é coisa de menino, garota, sai daí que você não é muleque!”. O oposto também acontece. Já vi muito menino querendo brincar de boneca, brincar de comidinha, e ouvir esporro dos respectivos genitores, do tipo “isso é coisa de menina, porra, tu é viadinho, por acaso?”.

O negócio é o rapazote aprender ainda novinho pela boca dos próprios pais que ele tem que sair metendo o pinto em tudo quanto é garotinha, enquanto a garotinha aprende que tem que esconder a pepequinha de tudo que é menininho. Isso desde a mais tenra infância. Péssimo. Deprimente. Mulheres já aprendem desde crianças a conviverem com uma repressão tão entranhada, que a maioria dos grandes papis-educadores sequer percebe, ou não se dá ao trabalho de perceber. Enquanto isso, os homenzinhos crescem aprendendo as táticas de como ser fodão, livre, leve e solto, com seus brinquedinhos que, sem nenhum remorso ou culpa, podem incitar a violência à vontade. Para as meninas, Barbies que são a total representação de modelo estético impossível à raça humana. A sociedade é patética.

Aí a gente cresce. Sim, nós crescemos. E depois de sofrer esse estupro mental durante todo o início de nossa construção cognitiva, depois da repressão imposta pela escola, pela família, pela mídia, antes mesmo que saibamos como soletrar nossos nomes, somos obrigadas a ouvir como resposta a algum surto psicótico “isso é coisa de mulherzinha”. E quando poucas de nós conseguem lidar com esse total estupro mental sofrido durante toda a infância e fugir dos estereótipos repressores impostos pela sociedade (o que não nos impede de entrar em sérios conflitos existenciais, é claro), somos julgadas, mal interpretadas, isso quando não aparece um babaca (em geral, muitos babacas) confundindo liberdade de pensamento com libertinagem generalizada.

 E quer saber? Foda-se também se eu quiser ser libertina. Nunca tive vocação para Cinderela. 

27 de jul. de 2012

Crônica de uma partida



A vida sempre me deu tudo o que precisei, no tempo certo. Mas será que desejo tudo de maneira tão errada, para nunca ter o que eu quero? Ou talvez eu simplesmente não saiba  ao certo o que querer. Ou não saiba fazer por onde para me encontrar.Todas as pessoas que entraram em minha vida surgiram quando delas eu precisei, e nela permaneceram enquanto foi necessário. E se distanciaram depois de cumprirem seu papel em minha história. Algumas sumiram. Outras simplesmente se afastaram e voltaram quando novamente precisei, sem que nunca fosse necessário meu chamado. Outras, acho que apenas por circunstâncias da vida, estiveram mais tempo aqui. Mas nenhuma delas foi em vão.

Até mesmo de minhas mais dolorosas convivências tirei da experiência algum aprendizado, e segui minha vida, superando as mágoas em muitas das vezes. Mas segui tendo ao meu lado pessoas que atraí em razão do meu momento, ou que a vida escolheu para mim e colocou em meu caminho, com o cuidado de quem se preocupa com os rumos que não sei seguir. Minhas polaridades, tão opostas, contrárias a mim mesma, me permitem acreditar no destino ao mesmo tempo em que me dão a certeza do livre arbítrio de minhas escolhas. Mas sei que apesar de minhas escolhas, enquanto eu não aprender o que devo com certas experiências, elas vão se repetir, e ficar por ali, rondando minha cabeça, tirando meu sono, invadindo meus sonhos. Elas sequer precisam se concretizar, não fisicamente. Quando ocupam minha mente, já me impedem de seguir. E fico aprisionada em correntes invisíveis, tão difíceis de serem soltas, tão difíceis de enxergar.

Então você chegou...

Quando uma vez me libertei de uma de minhas amarras, uma das que tanto me sufocavam, você apareceu. Depois de sozinha descobrir esse alívio, essa leve paz de espírito, recebi de presente você. Você só apareceu em minha vida para que eu pudesse ter a plena certeza de que eu poderia seguir. Poderia não ser fácil. Mas seria possível.

Você só deveria ficar para deixar clara em mim a sensação de libertação que senti, que conquistei depois de tantos pedidos, súplicas, muitas até mesmo inconscientes. E assim foi. Você me deu uma felicidade livre de qualquer cobrança, e assim como mandava o roteiro disso que acredito ser o destino, depois de estabilizar minha tristeza, você foi embora. Exatamente como deveria ser. Exatamente como eu sempre soube que seria.

E senti muito sua falta. Chorei. Mas eu entendia qual era o seu papel e nunca amargurei sua partida. Você seria apenas só um pedaço da minha história, daquelas que às vezes até esquecemos, apesar da importância que tiveram em algum momento de nossas vidas. E segui achando que essa saudade de você uma hora iria passar. Segura que seu tempo em mim havia acabado, como realmente acabou. Mas não sei o porquê, contra toda lógica que sempre percebi em tudo ao meu redor, você acabou ficando... não em minha vida... mas impregnado em mim...

Como o resquício de uma lembrança que não me abandona, como a vontade de entender algo que não foi de verdade vivido, como um fantasma ali, sempre presente, que por maldade acende tudo que eu tento apagar com um simples olá, para depois, como sempre, ir embora. Ir embora? Não... você nunca sequer esteve aqui. E eu sempre entendi. Nunca cobrei. Ainda assim, não consigo te deixar escapar de meus pensamentos.

Você nunca sequer imaginou a importância que teve para mim. E do esforço que faço para não te odiar pelo seu descaso, por apesar dessa sua suspeita de mim, se manter tão indiferente a tudo que sinto. E penso em você sem querer, me esforçando para não amar uma idealização. Mas idealizar o quê, se você sempre se revela exatamente do jeito que imagino? Mesmo quando me magoa com sua distância. Eu te entenderia, se não me esforçasse tanto em te esquecer.

Mesmo quando meu orgulho me manda não querer mais você. Manda em vão. Não é o orgulho, mas meu coração que me faz ter essa certeza, a certeza de que eu não te quero. Loucura. Eu também não me entendo. Mesmo se eu te quisesse, você ama demais a sua solidão para amar qualquer outro alguém, principalmente um alguém com a intensidade que eu precisaria ser amada. Você também tem medo. Prefere ser egoísta despertando em outras o quê sabe que, no fundo, não deseja para você. Talvez seja esse o seu consolo para a solidão que você não consegue afastar, mesmo fugindo tanto de tudo, mesmo estando no meio de tudo. Talvez você fuja de você mesmo.

Mas fugindo ou não, você veio de encontro a mim. Só que você não estava no meu caminho. Você surgiu porque um dia eu precisei, não exatamente de você, mas de alguém como você. E sem querer eu te chamei, você me ouviu, me atendeu. E depois, assim como deveria ser, você foi embora, você não fazia parte da minha história. Mas se é assim, por que então você ainda não foi embora?

Será que eu ainda preciso de alguém como você? Será que você me fez precisar de você? Ou será que é você, que sequer se importa, que na verdade precisa de mim? Talvez eu nunca descubra. Vai ser o que o destino quiser. Porque eu não vou fazer por onde. Eu nunca fiz... eu só quero que essa partida tenha logo um fim. Eu só não quero ter alguém tão próximo de mim. 

Mas se você não tiver mesmo quer ir... fica?

16 de jul. de 2012

Tem culpa eu?





Me preocupei de verdade com aquele pecado, tanto que voltei para me redimir e recapitular os fatos. Sendo assim, encontrei-me no fundo de um delito nada extato. Olhando para mim mesmo vi que não tinha culpa suficiente para transformar tudo aquilo em dor carcomida, eu estava limpo. Precisava de culpa.


Entrei num site de culpa virtual, desses que se comercializam tudo que uma sociedade moderna precisa. Comprei minha culpa, uma que me caberia coerentemente quando chegasse por correio. Esperei a culpa chegar por mais ou menos oito semanas, mas a culpa não chegou. Liguei para a central de relacionamento para reclamar a ausência de minha culpa, a que eu escolhi na promoção.


Os atendentes eloquentes gerundicamente me asseguraram que a culpa tinha sido recebida por alguém. E se a culpa não tinha chegado até mim, significava que eu não merecia ter o produto.


- A culpa foi paga e recebida, isso faz quase cinco semanas. O senhor vai estar esquecendo aquela culpa e deverá gerar outro sentimento de semi culpa e preencher um formulário online de requerimento. Depois, o senhor deverá consultar o nosso catálogo de culpas recentes. Digite o código de sua culpa, pois ele é cumulativo. Logo em seguida, obtenha um desconto especial para a compra de uma culpa dupla, assim o senhor poderá estar presenteando alguém com uma culpa exclusiva. Aproveite nossa promoção, agradecemos a sua ligação e tenha um bom dia.

9 de jul. de 2012

Matilde: a pegadora do forró




Assim como a canção entoada pelo Forroçacana, Matilde é uma menina que não liga para nada. Mas nem sempre foi assim. Nos idos do início do século 21, ela era uma menina cheia de ternura, sonhava em casar e constituir uma linda família feliz. De família nobre, ela vivia sempre arrumada e perfumada na esperança de encontrar na esquina seguinte o seu príncipe encantado.

Suspirando ao nascer da lua, pensava que seu amado iria chegar como nos contos de fada, que, assim como ela, estaria belo e sempre disposto. Ao conhecer alguém, pensava "é esse" até que logo depois ele virava sapo. Mais uma desilusão prosseguia e o sonho era adiado.

Os anos passaram e Matilde começou a desconfiar que princípes encantados não existiam, que era história da Dona Carochinha. Suas belas vestes de menina mimada deram lugar roupas mais leves. Seus saltos viraram sandalinhas e ela caiu na noite, já que estava tudo perdido a ideia passou a ser se perder de vez!

De menina romântica passou a matadora. Matadora de corações apaixonados. Não queria mais se apegar a ninguém. Sem saber se era trauma ou não, arrumava defeito onde não tinha - ou poderia ter?

Disso, ela até hoje não sabe. E nem quer mais saber. O que Matilde quer é cair na noite e apenas se divertir arrastando o pé pelos mais belos e encantadores guetos do forró e ficar somente uma vez... "para não alimentar saudade, que a felicidade com ela não há".

20 de jun. de 2012

Nietzsche não transava




O objetivo desse estudo da linha de pesquisa freudiana é analisar o comportamento de um grande picudo da filosofia contemporânea e explicar como foi possível a materialização de tamanha genialidade. É isso mesmo. Vou falar dele, o alemão bigodudo, o viciado em remédios controlados, o grande Tio Nini, Friedrich Nietzsche para os menos íntimos. Meu breve estudo tem por finalidade comprovar a seguinte afirmação: o grande gênio da “raça-ariana” (ah, Nini!) não copulava. É isso mesmo. Não introduzia o baguete na manteiga, não dava bananada na cara das chicas, não usava o bilauzinho para atividades sexuais. Salvo os momentos mais íntimos com as próprias mãos, é claro.

Para comprovar minha tese, usarei três argumentos. O primeiro deles foi o que iniciou minha reflexão. Meu projeto para esse estudo surgiu quando comecei a refletir sobre a repulsa de Tio Nini quando o assunto é o sexo feminino. Sempre percebi em suas obras um claro desprezo pelas fêmeas, que não serviriam para nada além da cópula. Eu poderia utilizar citações de inúmeros de seus livros, mas estou com preguiça de catar os que tenho em minha estante. Mas isso não quer dizer que, em minha conturbada cabecinha, eu não tenha muitas referências dele. Enfim, sendo assim, usarei unicamente como referência aqui a última obra que li dele: Além do bem e do mal.

Pois bem, vamos fazer uma breve análise das seguintes citações:

É ilícito duvidar que a mulher queira ou possa querer esclarecimento sobre si... Se com isso ela não busca para si um novo enfeite – creio que enfeitar-se é parte do eterno feminino, não? -, então ela quer despertar temor – talvez até dominar. Mas não quer a verdade: que interessa à mulher a verdade! Desde o início nada é mais alheio, mais avesso, mais hostil à mulher que a verdade – sua grande arte é a mentira, seu maior interesse, a aparência e a beleza.

Ou seja, nós, mulheres, vaginas escrotas, somos umas falsas, manipuladoras e fúteis, que temos como único objetivo na vida cuidar da aparência para tentar manipular os homens-penianos, que administram com tanto primor a civilização. Então ele prossegue:

Vamos confessá-lo nós homens: nós festejamos e amamos precisamente essa arte, esse instinto na mulher: nós, para quem as coisas são pesadas e que de bom grado nos juntamos, para obter alívio, a seres cujas mãos, olhares e ternas tolices nos fazem parecer quase tolice a nossa seriedade, nosso peso e profundidade.

Traduzindo: ainda por cima somos responsáveis pelo desvirtuamento de todo potencial intelectual humano, com nossas tolices imbecis. A profundidade existencial dos machos copuladores sofre com nossa essência pueril. Ai, Tio Nini, meio socrático isso, não?

O pior é que, o único orgulho da fêmea-portadora-de-cona em uma sociedade sexista, ele faz questão de também esculhambar:

A estupidez na cozinha; a mulher como cozinheira; a terrível leviandade com que se cuida da alimentação da família e do chefe da casa! A mulher não entende o que significa o alimento: e quer ser cozinheira! Se a mulher fosse uma criatura pensante teria descoberto, cozinhando há milênios, os mais importantes fatos fisiológicos, e teria também aprendido a arte da cura! Por más cozinheiras – por total ausência de razão na cozinha é que a evolução do homem foi mais longamente retardada, mais gravemente prejudicada: isso pouco mudou em nossos dias. Um aviso para as moças que frequentam o secundário.

Okay, Tio Nini, deixe-me ver se eu entendi. A culpa pela humanidade ter falhado em seu projeto iluminista e ter chegado ao ponto em que a modernidade vê seu conceito esvaziado, dando espaço para o que chamamos de hipermodernidade, segundo Gilles Lipovetsky, ou supermodernidade, segundo Marc Augé, ou o meu preferido, Modernidade Líquida, segundo Zygmunt Bauman, é nossa! A culpa é nossa, mentecápitas mulheres, que não sabemos cozinhar direito. Gentchi, preciso admitir que nunca me senti tão mal por não saber nem fritar um ovo. Pena eu só ter lido isso bem depois de ter terminado o secundário.

Mas melhor do que isso é quando ele diz que as mulheres devem viver à base da chibata, pois esse é o caminho da evolução da humanidade.

O homem tem que conceber a mulher como posse, como propriedade a manter sob sete chaves, como algo destinado a servir e que só então se realiza; ele tem que se apoiar na imensa razão asiática, na superioridade de instinto da Ásia (...), à medida em que cresciam em cultura e força, pouco a pouco tornavam-se mais rigorosos com a mulher, isso é, mais orientais.

E para el grand finale desse momentinho citações de tio Nini, afinal, essa é só meu primeiro argumento, encerro com a seguinte frase:

Em nenhuma época o sexo frágil foi tratado com tanto respeito pelos homens como na nossa.

Simone Beauvoir, com todo aquele papo existencialista de que ser mulher é apenas uma questão de construção social, poderia ter sido BFF (Best Friend Forever) dele, se não fossem as limitações geográficas. Tudo bem, a Europa é um ovo, da França para a Alemanha é um pulo, mas foda-se, vocês entenderam o que eu quis dizer. Sarcasmo e deboche nem sempre é meu forte, não sei se deu para perceber.

Pois bem, não pensem que eu seria vazia a ponto de concluir que essa pequena implicância de Tio Nini com as conas-de-plantão seria motivo suficiente para me fazer cismar que, de uma boa xana, ele não sentia nem o cheiro. Fui além em minhas reflexões. Na verdade, eu divido os escritos de Nietzsche em duas categorias: a sóbria e a insana. Ambas geniais, é claro. Mas se em alguns momentos ele parece um senhor acadêmico recatado em seu estilo, em outros ele faz a total maluca e escreve como se fosse um insano cheio de cocaína na mente.

Nessas passagens estilo insana, ele adora dar uma de surtado egocêntrico e se autodeclara o homem superior, o filósofo que está acima da maioria de bestas que só sabem discutir sobre o que seria moralmente correto e blá-blá-blá. Já senti alguma coisa aí.  Então, em Assim Falou Zaratustra ele me vem com aquele papo de super-homem. E por que ele inventou essa história de um super-homem? Porque ele não usava a super-jeba para nada que não fosse uma boa super-punheta. Logo, o super-homem era seu alter ego comedor, algo bem no estilo Clube da Luta, em que o esquisitão-come-ninguém projeta sua imagem no gostoso do Brad Pitt.

Quando você pensa em super-homem, você pensa em quê? No clássico das histórias em quadrinhos! E isso te leva a pensar em quem? Nos nerds adoradores do Super Homem, que não comem ninguém, mas que são fãs do homem de aço. Super Homem, o grande ídolo dos punheteiros de plantão. Sensacional.

Sendo assim, apresento meu último argumento. Como é que um homem poderia ser tão genial e mandar todo mundo lascar a moral para puta que o pariu, pedir que não fôssemos os macacos e seguíssemos nossa linha de pensamento, e vir com todo aquele papo de “deus está morto”, se o cara perdesse o tempo dele transando? Ou um, ou outro, meus queridos e queridas. Não dá para ser gênio e fudedor ao mesmo tempo. Ele concentrava todo seu furor sexual frustrado escrevendo genialidades. Uma jeba não utilizada tem potencial de fazer milagres.

E vamos ser sinceros: infelizmente, mulheres em geral não curtem nerds-bigodudos-punheteiros, que vivem se vomitando em crises de enxaquecas homéricas. Aí, elas não queriam dar para ele, aí ele escrevia mais, mais, e mais, ficava ainda mais esquisito, aí é que as mulheres não queriam dar mesmo... vocês não percebem?! É um evento cíclico! Mas gentchi, é tão óbvio!

E encerro essa minha pequena tese com a singela conclusão: Nietzsche era um gênio porque não transava, e não transava porque era um gênio. Palmas às mulheres que recusaram suas honrosas xanas em flor para o bilau em chamas do Tio Nini. Devemos as reflexões desse grande pensador a vocês.

FIM

13 de jun. de 2012

esboço para um conto



Sempre esteve ali. E sempre olhei, mas nunca vi. Enxergava apenas os contornos que não perdiam um único detalhe, a exata reprodução de mim. Mas não era eu. Era reflexo, imagem invertida, contrário do disforme que sempre fui. Nunca quis ver. Primeiro não importava. Quando importou, preferi fugir, nunca prestar atenção.

Mas naquele dia eu olhava, e mesmo procurando, não mais me via. Ou via, via uma outra coisa que eu não reconhecia. E toquei meu corpo. Aproximei o rosto. Encostei no espelho. Mas tocava e não sentia. Fui afundando meu corpo cada vez mais e mais. E me deixava engolir como se estivesse enfeitiçada, ou talvez fosse simples torpor de quem não se importa com o que está acontecendo.

Afundaram-se meus dedos. Minha mão. Meu braço. E o que antes era leve sensação me puxou com força, me tirou o ar. Meu coração acelerou, sufoquei. Quando fui sugada pela imagem que eu fazia de mim mesma, mergulhei no total vazio. Mas era um vazio cheio de tudo, um vazio de excesso. Tantas cores, tantas formas, cheiros, gostos, sons... que eu nada absorvia.

Não fui Alice, mas comi do bolo. Bebi do líquido. Nem sei em quantos tamanhos me tornei. Mas o mundo ao meu redor crescia e diminuía também, e nunca tive certeza se alguma coisa havia mesmo mudado. Do outro lado, do meu lado do espelho, quando minhas angústias tinham motivo concreto eu me confortava com a esperança de que em algum momento poderiam passar. Mas agora que não fazem mais sentido, não sei mais lidar com elas, não sei o que esperar de mim.

Flutuei, tirei os pés do chão. E enquanto plainava alto, me via na praia sendo engolida pela fúria do mar. E não sabia se me afogava ou voava. Se meus pulmões eram limpos pelo ar fresco ou invadidos pela água salgada. Se eu era as duas, não poderia fazer ideia de qual das duas eu era.

Eu – ou elas? – brigavam, se desentendiam. Uma berrava, implorava ajuda, a outra estava desesperada demais para se aproximar. Até serem empurradas para a areia. Tentei me encontrar, mas fugi, me perdi de mim. E fiquei ali, o tempo todo. Doía. Se já não acreditava mais em minhas certezas, não fazia ideia do faria com minhas dúvidas.

Corri ao meu encontro. Corri de mim. Gritei. Ninguém ouviu. Caí, afoguei em mim mesma. Mergulhada nos sonhos que não tinha, nos medos que não sentia, nas coisas que não via, nos amores que não senti. E voltei. Acordei do meu lado do espelho. Sem saber se aquele seria mesmo o meu lado. Como em um sonho em que sempre sonhamos que acordamos, e ficamos desesperados ao perceber, mais uma vez, que estávamos dormindo.

Quando voltei, não era mais eu. Era uma outra coisa que me fazia entrar em constante conflito com minhas identidades anteriores, com minha alteridade que não poderia mais ser definida pelas mesmas relações. Porque a mudança foi só minha, mas todos continuavam os mesmos, eram todos ainda sempre tão iguais. Iguais demais para que pudessem entender a complexidade do que me tornei. Ou sempre fui. E virei ilha. Rodeada de buracos. Nem todos vazios.  

O aceitável para os outros foi se tornando cada vez mais insuportável para mim. E encontraria milhões de dedos que me apontariam pelos meus questionamentos, por essa inconformidade. “Mas todo mundo vive assim, qual é o seu problema?”. Mas eu não poderia mais viver daquele jeito. E não posso falar para ninguém sobre a angústia que me consumiria cada vez mais. Não restaria para mim outra opção senão fugir.

Mas não teria sequer para onde ir. Quando voltei, tive a certeza de que não haveria jamais lugar para mim. Estar perdida sequer seria uma opção, pois quem se perdeu é porque em algum momento escolheu um caminho. Eu nunca tive uma escolha para fazer.   

Quando me olhei novamente no espelho, vi aquela não era eu. Nunca foi.