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17 de mar. de 2014

Medusa Tecno Pop

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Ontem foi mais um dia de tédio e mais uma noite de nada. Seria fatídico se não recebesse às 22hs, um telefonema afobado da querida “Mourena do Méier”.

- Ta acordada?
- To!
- Então liga no SBT, o Didi vai apresentar a Medusa.
- Genteeeeeeeeee, onde?
- No programa: Qual é o seu talento?
- No creioooooooooooo. Vou ligar agora.

A Medusa Tecno Pop, que já é conhecida da “galera que sabe se divertir”, faz tempo, esfregou-se fluorescente pelo chão e deu seu nome, identicamente como naquele dia no Hotel Paris. Fiquei morrendo de saudades de uma época que já passou, mas me senti feliz por saber que de alguma forma, buscamos o inusitado para sair de uma vida sem brilho.
 
Ela rastejando no México
http://www.youtube.com/watch?v=fH-JmaMRvGA&feature=related


Ode à Medusa... 

Com todas as suas caraminholas na cabeça.
Humilhando-se e exaltando-se, levando vivas e gongadas
seja na TV, no México, ou numa festa infernal,
misturado com putas e universitários num motel falido
Viva o artista que não faz acepção de público! 


















Medusa rastejando aos pés da platéia




















Medusa sensualizando no Hotel Paris







Glóbulos, e quase te liguei

 

Encostada no muro do Museu da República, uma velha deu o papo reto: o coração tem razões que o coração desconhece.

-O que é o coração?-

Quase te liguei para perguntar. Mas preferi deixá-lo a vontade. Sei o quanto interrupções geram caos. Sei da necessidade do caos, embora saiba mais sobre a facilidade de viver sem ele. Apesar de pouco viver assim, desse modo, tranquilo.
Não estou verbalizando nada, mas preciso confessar, joguei o que é glóbulo vermelho no google. Na verdade pensei em te ligar para perguntar se você saberia me explicar o que é glóbulo vermelho.
Mas fiquei preocupado de estar gerando algum transtorno compulsivo obsessivo, ah, desculpe, me disseram que este termo já está até fora de moda. A onda agora é falar sobre a síndrome de borderline ( ou transtorno de personalidade limítrofe), também ouvi dizer que é grave. Mas ouvi que muitos estão fadados ao descontrole do coração. Afeto disfuncional. Que coisa mais moderna, que horrível.
Prometo que vou parar de enviar estas mensagens. Estou só me assegurando de que você está me compreendendo. Espero que você realmente esteja.
Então, sobre os glóbulos, eu até cheguei a confundir com lóbulos. Veja só que cabeça a minha, de vento, bem que você sempre me dizia.
Lembrei até que a gente tinha marcado de vermelho, com o batom da sua amiga Fernanda, um círculo no calendário (Dia Red), que dia era mesmo? Você lembra? Não consigo lembrar também o que havíamos planejado. Talvez seja algo relacionado a fertilidade?
Mesmo sendo homens tínhamos essa brincadeira de período fértil. Que loucura, que viagem. Nos divertíamos achando que nosso tatibitate seria contemplado pela lua crescente também.
Sempre que eu ouço uma voz que lembra a sua, eu toco no meu lóbulo esquerdo. Eu juro, eu juro, é involuntário. Chega a ser ridículo. Eu me divirto, confesso. Eu fico apertando o meu lóbulo que nem um menino carente, desses que estão lutando diariamente com a noite para deixar de usar a chupeta.
Que falta de rir contigo vendo vídeos raros do Monty Python. Caramba, estou falando demais. Termino por aqui então, espero que você tenha sinceramente, parado de usar aquela calça cargo com bolsos coloridos. E também parado de fumar dormindo. 

Abraço,
Gordon P. 


Ah, lembrei de você numa viagem 
Coimbra, Portugal - outubro/2013

8 de mar. de 2014

Não há caminho





Li por esses dias que nossa vida é como os trilhos de metrô. Quando olhamos para frente vemos várias ramificações e devemos sempre escolher qual delas seguir. Mas quando olhamos para trás, vemos apenas o único caminho que trilhamos, que é um só. O caminho que é seu. O problema é que, sempre que olho para frente, não vejo nada além de um único trilho, como se não houvesse escolhas para mim... Na maioria das vezes, sinto como se eu sequer saísse da mesma estação porque não há caminho para seguir...

(...)

Chove lá fora. E fico pensando em todos os lugares onde essa mesma chuva cai, molhando tantos corpos e lugares diferentes do meu, todos tão distantes. E eu não estou em nenhum deles. Estou aqui, quieta em meu canto, no meu lugar, exatamente (?) onde eu deveria estar. Sempre sentindo que não há lugar algum para mim.

(...)

Em um dos meus momentos de desespero, há aproximadamente três anos, fiz uma lista com objetivos a seguir. Um necessidade desmedida de ter metas, uma tentativa de inventar um rumo qualquer. E agora que orgulhosa percebo que consegui cumprir quase todas, que tudo que poderia nesse tempo tão pequeno, sinto como se nada tivesse mudado. Talvez eu tenha mudado. E muito. Mas não consigo tirar de mim essa sensação de insatisfação constante. Esse desespero por não fazer ideia do que devo fazer agora. “Perder-se também é caminho”, disse Clarice. Mas estou tão inerte, sequer me perdi.

Um dia tive um sonho
Engraçado que esse texto que faz analogia às linhas de metrô como se fossem nossas vidas, sempre passando pelas estações do destino, me fez lembrar de um sonho que tive há um tempo. Talvez agora eu o entenda melhor do que quando acordei.

Sonhei que estava em uma estação de metrô muito cheia com meus dois irmãos e três amigos. Quando o trem chegou, peguei na mão de minha irmã mais nova e corri para um deles, que para minha surpresa estava vazio, quase não havia ninguém. Logo que entrei, comecei a ficar nervosa, meu irmão não estava com a gente e as portas se fechariam a qualquer momento. Ao último toque ele apareceu correndo e sentou ao nosso lado. E disse que nossos amigos iriam em outro vagão. Um tempo depois de o trem partir, os vagões começaram a se separar um dos outros, seguindo rumos próprios, sequer sei se havia trilhos no chão.  Deveria haver... Quando acordei, imediatamente entendi que esses amigos haviam saído da mesma estação que a nossa. Mas não fariam suas trajetórias do nosso lado.

No sonho, passávamos por lugares onde nunca estive mas que naquele momento eu conhecia. Havia uma floresta linda, mas os trilhos percorridos pelo meu vagão não poderiam passar por dentro. Nem mesmo eu entendo como eu sabia que o lugar era tão lindo, já que as montanhas tapavam a minha visão. Ainda assim eu lamentava, mas ficava feliz por saber, de alguma forma, que o vagão dos meus amigos passaria por ali. Triste e feliz ao mesmo tempo.

O vagão foi esvaziando e quando me dei conta, éramos só nós três. Até que ele parou no meio de uma floresta escura, nos obrigou a descer a simplesmente desapareceu. Meu irmão disse que não poderia mais seguir ao nosso lado e deixou minha irmã e eu sozinhas. Ameaçamos um choro, nos apavoramos, mas sabíamos que não poderíamos ficar simplesmente paradas ali. Eu segurei a mão dela, ela olhou para mim e disse “agora a gente tem que ir”. E fomos.

As poucas pessoas que encontramos pelo caminho vinham no sentido oposto ao nosso. Todas nos davam medo, muito mais a ela do que a mim. Mas nenhuma, em momento algum, sequer ameaçou nos fazer qualquer mal. Poderíamos ter parado para conversar com elas, perguntar aonde estávamos, para onde aquela trilha que percorríamos nos levaria, mas nosso receio não deixou...

O medo fazia com que corrêssemos todo o trajeto. Mas eu ao menos tentava correr em um ritmo que fosse suportável para mim. Já minha irmã queria correr desesperadamente e por isso tinha que parar várias vezes. O passo desmedido apenas fazia com que ela ficasse exausta. E quando ela ameaçava parar, para não perdemos tempo, eu a carregava. E continuava seguindo aquela trilha na ânsia de encontrar seu fim.

Em um dos momentos da corrida eu olhei para os lados e percebi que a escuridão já havia passado há muito tempo e estávamos em um lugar lindo, lindo demais para meus olhos já tão acostumados a não verem nada além de uma estrada que parecia não ter fim. Havia a imensidão do mar e um sol que tocava as águas, tão grande e tão próximo que poderia me engolir. E vi as montanhas. Tudo assim, junto, no mesmo lugar. Minha mente agora, acordada, não consegue conceber essa paisagem. Mas no sonho ela parecia tão óbvia e perfeita... Só que não o suficiente para me fazer parar de olhar para a frente e correr, correr, correr...

Então me deparei com uma ponte de cascos de árvores que ficava a apenas um palmo das águas verdes de um rio. Como todos os que caminhavam tinham que seguir por ela, conforme andávamos, ela começou a afundar. E para que minha irmã não se afogasse, eu a levei no colo. A ponte afundou totalmente, mas ainda assim continuei seguindo o trajeto que ela fazia. Eu poderia ter nadado por todo o rio, buscado qualquer alternativa. Foi isso que pensei quando acordei. Mas enquanto sonhava, não cogitava a hipótese de sair do percurso que a ponte já afundada fazia.

Quando saí da ponte, vi uma casa enorme à minha frente. Entrei nela, na esperança de encontrar uma porta nos fundos que me permitiria continuar a caminhada. Mas ao transitar pelos cômodos percebi que não havia outra saída. E para piorar, minha irmã sumiu, se perdeu de mim... e comecei a entrar em desespero.

Em um dos cômodos encontrei uma mulher negra, corpulenta, inspirava uma placidez que eu não tinha naquele momento. Ela tinha em torno de 60 anos e usava um turbante na cabeça. Pedi ajuda e ela me indicou uma das salas onde encontrei um senhor muito velho, com uma longa barba branca, trajando roupas tão clara quanto a cor de seus cabelos. E perguntei, nervosa, onde estava a saída dos fundos da casa para que eu pudesse continuar o meu caminho. A resposta que ele me deu, apesar do tempo que tive esse sonho, não me saiu mais da cabeça.

“Mas que caminho? Não há caminho. Você chegou até aqui correndo sem nem saber para onde ia. Não olhou os lugares por onde passou. Você pensa que desse jeito vai chegar onde?”. Parei, em choque. Refleti. E chorei. Ele abriu uma parede à minha frente, que dava para um mar enorme, com sol, montanhas, tudo muito parecido com a paisagem que eu havia visto um pouco antes, mas o céu era rosa e amarelo. Ele continuou.

“Se você quiser continuar andando, pode ir por essa brecha da parede que eu fiz para você. Mas você vai para onde? Do que adianta sair correndo, se você os enxerga os lugares por onde passa?”. Eu havia perdido aquele todo correndo... e mesmo quando não tinha mais medo, não podia parar de correr, por um motivo que nem existia. Chorei, chorei soluçando sentada no chão, sozinha e perdida. A confusão não provinha de lugar, mas dos meus pensamentos. Olhei para os lados na esperança de ao menos encontrar minha irmã perdida, mas tudo que vi foi meu documento de identidade caído no chão. Peguei aquele pedaço de papel e rasguei.

E agora lembrei de outro trecho que li no texto sobre o metrô. “Todos os caminhos são o mesmo, não conduzem a lugar algum. Mas uns têm coração, e outros não”. Talvez, realmente, sequer exista um caminho...

Saí da casa chorando e me dei conta de que, em vez de entrar na casa, eu poderia ter dado a volta e seguido pelo lado de fora. Mas eu estava tão focada em caminhar em frente, em frente, sempre em frente, que nem mesmo me dei conta disso. Dei a volta pelo muros e me deparei com uma cidade linda, formada por monumentos tão perfeitos que se perdiam em meio à natureza. Era uma céu tão colorido e a harmonia era tamanha, que todas as milhões de coisas que eu via pareciam ser uma só. Vi uma fonte. Sente nela e chorei.    

Sozinha em meu desespero, ouvi uma voz que perguntava “mas o que houve, menina?”. Era a senhora negra, de turbante, sensibilizada com a minha dor. “Estou sozinha e perdida. Não sei para onde vou”. Ela pegou e minha mão e com sua terna voz me consolou. Mas não me lembro de quase nada do que ela falou, além de alguns fragmentos perdidos. “Calma, minha filha. Quando você acordar você vai ver que tudo vai estar melhor. Tudo passa, você vai ver. Pode chorar à vontade”.

Depois de muito chorar, acordei. Mas mesmo acordada não me encontro. Não há caminho. Não há caminho para mim.    

3 de fev. de 2014

Universo




 Há um universo inteiro que se movimenta em mim, repleto de realidades paralelas e falsos paralelismos que se entrelaçam e se repelem, como em uma eterna dança de amor e destruição de um nada que existe com mais força do que qualquer outra coisa viva. Lugares obscuros e inconstantes onde apenas eu posso transitar.

Meu universo é uma estrada sem fim que percorro sem medo, mas um tanto assustada. Uma estrada sem limites, sem margens, sem indicação, sem direção. Um pairar no vácuo que ouso chamar de caminho. Um trajeto sem pegadas, talvez nunca percorrido. Tantos são esses não lugares que nem mesmo eu os conheço, e me perco. Um eterno levitar na inconsistência do nada.  

Há infinitas estrelas que queimam e cometas que rasgam o vácuo. Há planetas mortos que um dia transbordaram vida. E um buraco negro sempre atraindo constelações inteiras, sugando tudo para o caos de suas trevas, repletas de partículas negativas que se chocam e tudo destroem, em lampejos capazes de cegar a própria alma. Luzes submersas na mais profunda escuridão. Mas se meu universo é realmente infinito, por mais que seja consumido, sempre haverá fogo ardendo em algum lugar.

Sou agora uma atmosfera azul turquesa límpida e calma, sem oscilações, formada apenas por astros que brilham até o fim desse horizonte sem fim. Sou todo um céu cheio de vida, pairando sobre algum planeta distante, à espera do nascer do sol, do pôr do sol, do crepúsculo, experimentando todas as cores que essa mistura do cosmos pode me dar.

Sou um infinito que não cabe em mim. Sou uma luz que transcende o espaço e o tempo, e por isso mesmo, se perde em (de) mim mesma. Nesse universo onde ninguém mais pode transitar, não há salvação que extrapole a inconstância do caos interno que me acalma.

6 de dez. de 2013

Maldição do Candy Crush



Conheces tu a maldição do Candy Crush?
Repetirei a história que me foi narrada
Moça que brinca com jogo de pirulito
Fica dois anos sem levar pirulitada!

Pois não conheces a anedota do joguinho?
Que virou moda entre meninas bem sapecas:
Moças que brincam com balinha açucarada
Ficam dois anos sem chupada na pepeca!

Pois ora moços não se safam do suplício
Para os danados que só querem bole-bole:
Rapaz que joga Candy Crush todo dia
O pirulito vai virar maria-mole!


Lição de moral: larguem a merda desse jogo e vão transar. 

27 de nov. de 2013

Surpresa literária



Lá vou eu, passeando pelos sebos da vida, quando me deparo com a coleção “Obras imortais de nossa literatura”. Vi o livro As tardes de um pintor e, como eu não conhecia o seu autor, Teixeira Sousa (perdoem-me uzamiguinhos letrados-pseudo-cult), resolvi pegar o exemplar e me aventurar em uma leitura clássica do romantismo, já que o livro foi publicado em 1847.

Tudo bem que eu já esperava aquela lenga-lenga de amor-platônico-jamais-consumado, meninas-virgens-de-seios-alvos-imaculados e tragédia-xêrau-morre-no-final, mas as enxurradas de discursos preconceituosos ao longo da narrativa foram para mim uma surpresa. Discursos que legitimam com a maior naturalidade uma série de estereótipos comuns à época e que ainda hoje têm seus reflexos.

Encontrar isso em uma coleção intitulada “Obras imortais da nossa literatura” me deixou, no mínimo, decepcionada. Mas não vou ficar aqui questionando qual é o critério para que um autor seja eleito um puta de um escritor, já que Monteiro Lobato, racista até dizer chega, é referência de literatura infantil. Logo, em vez de ficar divagando em minha costumeira enrolação, resolvi reproduzir aqui alguns trechos do livro, com direito, é claro, à algumas observações.

“Justo era cigano, e em nada desmentia o caráter de sua raça vagabunda, interesseira e desamorosa”.
Ou seja, todo cigano é filho da puta. Uma ótima generalização, dessas que você ensina para as criancinhas, desmerecendo toda a cultura de um povo, que só sabe ser vagabundo, interesseiro e desamoroso.

“Os índios de sexo masculino eram por natureza indolentes, e bem que amigos de novidade, eram contudo baldos de todo talento inventivo; as mulheres, como sabemos, além de lascivas, eram incontinentes”.
Sim, porque os índios prestam apenas para serem escravizados por nós, brancos-de-raça-superior, que “por natureza” somos civilizados.

“-(..) Porque aquele homem tem cara de judeu.
  - Mas quem vê cara não vê corações.
  - Quase sempre, meu filho, quem tem má cara, tem mau coração”
Então, todo judeu é também filho da puta. Se for feio (e narigudo) então, aí é que é filho da puta mesmo. Talvez isso explique o holocausto.

“É triste maneira de conciliar a obediência filial com as simpatias do coração! Triste, muito triste! Morrer para não desobedecer a um pai, e para não se casar com quem não se ama, é um sacrifício desnecessário e talvez estupidamente oferecido às leis paternais e ao próprio amor! Mas esse sacrifício todavia é sublime!”
Ou seja, desrespeitar o papaco num pódi. Nesses casos, recomenda-se o suicídio. Você não casa com quem não ama, não descumpre o desejo de seu progenitor e ainda sai de a-bunita-coitadinha-mártir-sofredora.

“Abraçou o ateísmo com uma convicção robusta e inteiramente arraigada em sua alma! Tendo o jovem chegado a esse ponto, que muito era que se arrojasse ao medonho abismo, em que negrejam e redemoinham os mais hediondos crimes?!”
Quem é ateu também é consequentemente ladrão, assassino, estuprador (se é que para o Teixeirinha estupro é crime e não culpa da moça que se deixou deflorar), tudo de pior na face da terra, porque não aceitou xêzuis no coração.

E apesar de, é claro, já esperar esse tipo de discurso, eu não poderia deixar de reproduzir aqui a tradicional referência à mulher nesses tipos de livro, que é aquela que eu, que você, que mais um monte de gente cresceu ouvindo ser a clássica moça-para-casar. Aquela que quando eu tinha nove anos eu queria ser, já que era apaixonada por esse tipo de literatura e sonhava em viver um amor-avassalador-tipo-conto-de-fadas. Mas que logo depois eu desisti de ser, já que percebi não ter a mínima vocação para o “tipo-de-moça-para-casar”, nem ter paciência para o “tipo-garboso-senhor-cavalheiro” que quer uma “tipo-de-moça-para-casar”.

“Clara... encantadora Clara... mulher tão formosa e tão bela... mulher tão digna de uma felicidade suprema... Clara, tão bela, tão formosa, quão inocente, quão pura, quão virtuosa! (...) Diríeis que era uma virgem bela como suas esperanças; pura como seu amor; e inocente como sua infância (...)”
Traduzindo: deu antes de casar? Tudo puta.  

Depois dessa enxurrada de clichês, lugar comum e preconceitos sem fundamento algum (não desmerecendo a referência ao suicídio-santificador), alguém duvida que se hoje Teixeira Nunes fosse vivo, ele seria um reaça com coluna exclusiva na Veja?

E aí, vocês me perguntam: por que você continuou lendo esse livro? Digo que para fazer uma análise crítica do tipo de literatura que me agradava quando eu ainda mal sabia ler. Uma pré-adolescente que entendia o conteúdo, mas ainda não tinha capacidade cognitiva de fazer uma avaliação crítica do conteúdo consumido, e sem perceber vai incorporando uma série de discursos como legítimos, afinal, está escrito no livro. Para minha felicidade, aprendi a me libertar de muitas construções sociais que me foram impostas durante toda a vida, tão “naturais” quanto nocivas.    

Ainda assim, li.  Li tudo e achei o livro um porre. Li esperando muito chegar ao final, para poder enfim degustar com vontade (pelo menos assim espero) minha próxima leitura. O final da narrativa não me surpreendeu em nada, todos os malvados foram para a caixa prego, a heroína virgem morreu virgem (sem ver um pintinho sequer), e o mocinho ficou sofrendo.


Mas o que mais me chocou foi que, na última página, apesar de não ter gostado da estória, apesar de tudo que eu citei aí acima, apesar de estar de saco cheio do livro... eu chorei. Fiquei triste pelo moço bonzinho que se fudeu o enredo todo e resolveu virar frade franciscano nas últimas páginas. Talvez sejam vestígios da leitora juvenil que ainda existe em mim, ansiosa por romances-óbvios-mamão-com-açucar. Vá entender. Acho melhor ir agora de Chuck Palahniuk.