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20 de jun de 2012

Nietzsche não transava




O objetivo desse estudo da linha de pesquisa freudiana é analisar o comportamento de um grande picudo da filosofia contemporânea e explicar como foi possível a materialização de tamanha genialidade. É isso mesmo. Vou falar dele, o alemão bigodudo, o viciado em remédios controlados, o grande Tio Nini, Friedrich Nietzsche para os menos íntimos. Meu breve estudo tem por finalidade comprovar a seguinte afirmação: o grande gênio da “raça-ariana” (ah, Nini!) não copulava. É isso mesmo. Não introduzia o baguete na manteiga, não dava bananada na cara das chicas, não usava o bilauzinho para atividades sexuais. Salvo os momentos mais íntimos com as próprias mãos, é claro.

Para comprovar minha tese, usarei três argumentos. O primeiro deles foi o que iniciou minha reflexão. Meu projeto para esse estudo surgiu quando comecei a refletir sobre a repulsa de Tio Nini quando o assunto é o sexo feminino. Sempre percebi em suas obras um claro desprezo pelas fêmeas, que não serviriam para nada além da cópula. Eu poderia utilizar citações de inúmeros de seus livros, mas estou com preguiça de catar os que tenho em minha estante. Mas isso não quer dizer que, em minha conturbada cabecinha, eu não tenha muitas referências dele. Enfim, sendo assim, usarei unicamente como referência aqui a última obra que li dele: Além do bem e do mal.

Pois bem, vamos fazer uma breve análise das seguintes citações:

É ilícito duvidar que a mulher queira ou possa querer esclarecimento sobre si... Se com isso ela não busca para si um novo enfeite – creio que enfeitar-se é parte do eterno feminino, não? -, então ela quer despertar temor – talvez até dominar. Mas não quer a verdade: que interessa à mulher a verdade! Desde o início nada é mais alheio, mais avesso, mais hostil à mulher que a verdade – sua grande arte é a mentira, seu maior interesse, a aparência e a beleza.

Ou seja, nós, mulheres, vaginas escrotas, somos umas falsas, manipuladoras e fúteis, que temos como único objetivo na vida cuidar da aparência para tentar manipular os homens-penianos, que administram com tanto primor a civilização. Então ele prossegue:

Vamos confessá-lo nós homens: nós festejamos e amamos precisamente essa arte, esse instinto na mulher: nós, para quem as coisas são pesadas e que de bom grado nos juntamos, para obter alívio, a seres cujas mãos, olhares e ternas tolices nos fazem parecer quase tolice a nossa seriedade, nosso peso e profundidade.

Traduzindo: ainda por cima somos responsáveis pelo desvirtuamento de todo potencial intelectual humano, com nossas tolices imbecis. A profundidade existencial dos machos copuladores sofre com nossa essência pueril. Ai, Tio Nini, meio socrático isso, não?

O pior é que, o único orgulho da fêmea-portadora-de-cona em uma sociedade sexista, ele faz questão de também esculhambar:

A estupidez na cozinha; a mulher como cozinheira; a terrível leviandade com que se cuida da alimentação da família e do chefe da casa! A mulher não entende o que significa o alimento: e quer ser cozinheira! Se a mulher fosse uma criatura pensante teria descoberto, cozinhando há milênios, os mais importantes fatos fisiológicos, e teria também aprendido a arte da cura! Por más cozinheiras – por total ausência de razão na cozinha é que a evolução do homem foi mais longamente retardada, mais gravemente prejudicada: isso pouco mudou em nossos dias. Um aviso para as moças que frequentam o secundário.

Okay, Tio Nini, deixe-me ver se eu entendi. A culpa pela humanidade ter falhado em seu projeto iluminista e ter chegado ao ponto em que a modernidade vê seu conceito esvaziado, dando espaço para o que chamamos de hipermodernidade, segundo Gilles Lipovetsky, ou supermodernidade, segundo Marc Augé, ou o meu preferido, Modernidade Líquida, segundo Zygmunt Bauman, é nossa! A culpa é nossa, mentecápitas mulheres, que não sabemos cozinhar direito. Gentchi, preciso admitir que nunca me senti tão mal por não saber nem fritar um ovo. Pena eu só ter lido isso bem depois de ter terminado o secundário.

Mas melhor do que isso é quando ele diz que as mulheres devem viver à base da chibata, pois esse é o caminho da evolução da humanidade.

O homem tem que conceber a mulher como posse, como propriedade a manter sob sete chaves, como algo destinado a servir e que só então se realiza; ele tem que se apoiar na imensa razão asiática, na superioridade de instinto da Ásia (...), à medida em que cresciam em cultura e força, pouco a pouco tornavam-se mais rigorosos com a mulher, isso é, mais orientais.

E para el grand finale desse momentinho citações de tio Nini, afinal, essa é só meu primeiro argumento, encerro com a seguinte frase:

Em nenhuma época o sexo frágil foi tratado com tanto respeito pelos homens como na nossa.

Simone Beauvoir, com todo aquele papo existencialista de que ser mulher é apenas uma questão de construção social, poderia ter sido BFF (Best Friend Forever) dele, se não fossem as limitações geográficas. Tudo bem, a Europa é um ovo, da França para a Alemanha é um pulo, mas foda-se, vocês entenderam o que eu quis dizer. Sarcasmo e deboche nem sempre é meu forte, não sei se deu para perceber.

Pois bem, não pensem que eu seria vazia a ponto de concluir que essa pequena implicância de Tio Nini com as conas-de-plantão seria motivo suficiente para me fazer cismar que, de uma boa xana, ele não sentia nem o cheiro. Fui além em minhas reflexões. Na verdade, eu divido os escritos de Nietzsche em duas categorias: a sóbria e a insana. Ambas geniais, é claro. Mas se em alguns momentos ele parece um senhor acadêmico recatado em seu estilo, em outros ele faz a total maluca e escreve como se fosse um insano cheio de cocaína na mente.

Nessas passagens estilo insana, ele adora dar uma de surtado egocêntrico e se autodeclara o homem superior, o filósofo que está acima da maioria de bestas que só sabem discutir sobre o que seria moralmente correto e blá-blá-blá. Já senti alguma coisa aí.  Então, em Assim Falou Zaratustra ele me vem com aquele papo de super-homem. E por que ele inventou essa história de um super-homem? Porque ele não usava a super-jeba para nada que não fosse uma boa super-punheta. Logo, o super-homem era seu alter ego comedor, algo bem no estilo Clube da Luta, em que o esquisitão-come-ninguém projeta sua imagem no gostoso do Brad Pitt.

Quando você pensa em super-homem, você pensa em quê? No clássico das histórias em quadrinhos! E isso te leva a pensar em quem? Nos nerds adoradores do Super Homem, que não comem ninguém, mas que são fãs do homem de aço. Super Homem, o grande ídolo dos punheteiros de plantão. Sensacional.

Sendo assim, apresento meu último argumento. Como é que um homem poderia ser tão genial e mandar todo mundo lascar a moral para puta que o pariu, pedir que não fôssemos os macacos e seguíssemos nossa linha de pensamento, e vir com todo aquele papo de “deus está morto”, se o cara perdesse o tempo dele transando? Ou um, ou outro, meus queridos e queridas. Não dá para ser gênio e fudedor ao mesmo tempo. Ele concentrava todo seu furor sexual frustrado escrevendo genialidades. Uma jeba não utilizada tem potencial de fazer milagres.

E vamos ser sinceros: infelizmente, mulheres em geral não curtem nerds-bigodudos-punheteiros, que vivem se vomitando em crises de enxaquecas homéricas. Aí, elas não queriam dar para ele, aí ele escrevia mais, mais, e mais, ficava ainda mais esquisito, aí é que as mulheres não queriam dar mesmo... vocês não percebem?! É um evento cíclico! Mas gentchi, é tão óbvio!

E encerro essa minha pequena tese com a singela conclusão: Nietzsche era um gênio porque não transava, e não transava porque era um gênio. Palmas às mulheres que recusaram suas honrosas xanas em flor para o bilau em chamas do Tio Nini. Devemos as reflexões desse grande pensador a vocês.

FIM

13 de jun de 2012

esboço para um conto



Sempre esteve ali. E sempre olhei, mas nunca vi. Enxergava apenas os contornos que não perdiam um único detalhe, a exata reprodução de mim. Mas não era eu. Era reflexo, imagem invertida, contrário do disforme que sempre fui. Nunca quis ver. Primeiro não importava. Quando importou, preferi fugir, nunca prestar atenção.

Mas naquele dia eu olhava, e mesmo procurando, não mais me via. Ou via, via uma outra coisa que eu não reconhecia. E toquei meu corpo. Aproximei o rosto. Encostei no espelho. Mas tocava e não sentia. Fui afundando meu corpo cada vez mais e mais. E me deixava engolir como se estivesse enfeitiçada, ou talvez fosse simples torpor de quem não se importa com o que está acontecendo.

Afundaram-se meus dedos. Minha mão. Meu braço. E o que antes era leve sensação me puxou com força, me tirou o ar. Meu coração acelerou, sufoquei. Quando fui sugada pela imagem que eu fazia de mim mesma, mergulhei no total vazio. Mas era um vazio cheio de tudo, um vazio de excesso. Tantas cores, tantas formas, cheiros, gostos, sons... que eu nada absorvia.

Não fui Alice, mas comi do bolo. Bebi do líquido. Nem sei em quantos tamanhos me tornei. Mas o mundo ao meu redor crescia e diminuía também, e nunca tive certeza se alguma coisa havia mesmo mudado. Do outro lado, do meu lado do espelho, quando minhas angústias tinham motivo concreto eu me confortava com a esperança de que em algum momento poderiam passar. Mas agora que não fazem mais sentido, não sei mais lidar com elas, não sei o que esperar de mim.

Flutuei, tirei os pés do chão. E enquanto plainava alto, me via na praia sendo engolida pela fúria do mar. E não sabia se me afogava ou voava. Se meus pulmões eram limpos pelo ar fresco ou invadidos pela água salgada. Se eu era as duas, não poderia fazer ideia de qual das duas eu era.

Eu – ou elas? – brigavam, se desentendiam. Uma berrava, implorava ajuda, a outra estava desesperada demais para se aproximar. Até serem empurradas para a areia. Tentei me encontrar, mas fugi, me perdi de mim. E fiquei ali, o tempo todo. Doía. Se já não acreditava mais em minhas certezas, não fazia ideia do faria com minhas dúvidas.

Corri ao meu encontro. Corri de mim. Gritei. Ninguém ouviu. Caí, afoguei em mim mesma. Mergulhada nos sonhos que não tinha, nos medos que não sentia, nas coisas que não via, nos amores que não senti. E voltei. Acordei do meu lado do espelho. Sem saber se aquele seria mesmo o meu lado. Como em um sonho em que sempre sonhamos que acordamos, e ficamos desesperados ao perceber, mais uma vez, que estávamos dormindo.

Quando voltei, não era mais eu. Era uma outra coisa que me fazia entrar em constante conflito com minhas identidades anteriores, com minha alteridade que não poderia mais ser definida pelas mesmas relações. Porque a mudança foi só minha, mas todos continuavam os mesmos, eram todos ainda sempre tão iguais. Iguais demais para que pudessem entender a complexidade do que me tornei. Ou sempre fui. E virei ilha. Rodeada de buracos. Nem todos vazios.  

O aceitável para os outros foi se tornando cada vez mais insuportável para mim. E encontraria milhões de dedos que me apontariam pelos meus questionamentos, por essa inconformidade. “Mas todo mundo vive assim, qual é o seu problema?”. Mas eu não poderia mais viver daquele jeito. E não posso falar para ninguém sobre a angústia que me consumiria cada vez mais. Não restaria para mim outra opção senão fugir.

Mas não teria sequer para onde ir. Quando voltei, tive a certeza de que não haveria jamais lugar para mim. Estar perdida sequer seria uma opção, pois quem se perdeu é porque em algum momento escolheu um caminho. Eu nunca tive uma escolha para fazer.   

Quando me olhei novamente no espelho, vi aquela não era eu. Nunca foi. 

2 de jun de 2012

Poeta um dia, quem sabe



nome do poema
tentei, mas não sei escrever poemas

 poema
o que fazer com resto de sentimento
de amor mal curado
com uma necessidade  reprimida...
além de mandar para a puta que o pariu?

considerações finais
um dia eu chego lá