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13 de jun de 2012

esboço para um conto



Sempre esteve ali. E sempre olhei, mas nunca vi. Enxergava apenas os contornos que não perdiam um único detalhe, a exata reprodução de mim. Mas não era eu. Era reflexo, imagem invertida, contrário do disforme que sempre fui. Nunca quis ver. Primeiro não importava. Quando importou, preferi fugir, nunca prestar atenção.

Mas naquele dia eu olhava, e mesmo procurando, não mais me via. Ou via, via uma outra coisa que eu não reconhecia. E toquei meu corpo. Aproximei o rosto. Encostei no espelho. Mas tocava e não sentia. Fui afundando meu corpo cada vez mais e mais. E me deixava engolir como se estivesse enfeitiçada, ou talvez fosse simples torpor de quem não se importa com o que está acontecendo.

Afundaram-se meus dedos. Minha mão. Meu braço. E o que antes era leve sensação me puxou com força, me tirou o ar. Meu coração acelerou, sufoquei. Quando fui sugada pela imagem que eu fazia de mim mesma, mergulhei no total vazio. Mas era um vazio cheio de tudo, um vazio de excesso. Tantas cores, tantas formas, cheiros, gostos, sons... que eu nada absorvia.

Não fui Alice, mas comi do bolo. Bebi do líquido. Nem sei em quantos tamanhos me tornei. Mas o mundo ao meu redor crescia e diminuía também, e nunca tive certeza se alguma coisa havia mesmo mudado. Do outro lado, do meu lado do espelho, quando minhas angústias tinham motivo concreto eu me confortava com a esperança de que em algum momento poderiam passar. Mas agora que não fazem mais sentido, não sei mais lidar com elas, não sei o que esperar de mim.

Flutuei, tirei os pés do chão. E enquanto plainava alto, me via na praia sendo engolida pela fúria do mar. E não sabia se me afogava ou voava. Se meus pulmões eram limpos pelo ar fresco ou invadidos pela água salgada. Se eu era as duas, não poderia fazer ideia de qual das duas eu era.

Eu – ou elas? – brigavam, se desentendiam. Uma berrava, implorava ajuda, a outra estava desesperada demais para se aproximar. Até serem empurradas para a areia. Tentei me encontrar, mas fugi, me perdi de mim. E fiquei ali, o tempo todo. Doía. Se já não acreditava mais em minhas certezas, não fazia ideia do faria com minhas dúvidas.

Corri ao meu encontro. Corri de mim. Gritei. Ninguém ouviu. Caí, afoguei em mim mesma. Mergulhada nos sonhos que não tinha, nos medos que não sentia, nas coisas que não via, nos amores que não senti. E voltei. Acordei do meu lado do espelho. Sem saber se aquele seria mesmo o meu lado. Como em um sonho em que sempre sonhamos que acordamos, e ficamos desesperados ao perceber, mais uma vez, que estávamos dormindo.

Quando voltei, não era mais eu. Era uma outra coisa que me fazia entrar em constante conflito com minhas identidades anteriores, com minha alteridade que não poderia mais ser definida pelas mesmas relações. Porque a mudança foi só minha, mas todos continuavam os mesmos, eram todos ainda sempre tão iguais. Iguais demais para que pudessem entender a complexidade do que me tornei. Ou sempre fui. E virei ilha. Rodeada de buracos. Nem todos vazios.  

O aceitável para os outros foi se tornando cada vez mais insuportável para mim. E encontraria milhões de dedos que me apontariam pelos meus questionamentos, por essa inconformidade. “Mas todo mundo vive assim, qual é o seu problema?”. Mas eu não poderia mais viver daquele jeito. E não posso falar para ninguém sobre a angústia que me consumiria cada vez mais. Não restaria para mim outra opção senão fugir.

Mas não teria sequer para onde ir. Quando voltei, tive a certeza de que não haveria jamais lugar para mim. Estar perdida sequer seria uma opção, pois quem se perdeu é porque em algum momento escolheu um caminho. Eu nunca tive uma escolha para fazer.   

Quando me olhei novamente no espelho, vi aquela não era eu. Nunca foi. 

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