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22 de dez de 2011

Efêmero adeus


Então me pergunto porque você foi embora. Não que tivesse me feito promessas. Muito menos eu prometi qualquer coisa a você. Mas acho que foi exatamente por isso que te amei – por apenas algumas horas, mas amei: porque não houve expectativas. E por não existir nada que me prendesse a você, naquela noite te amei. Depois esperei não esperando que você se tornasse um adeus. E você acabou mesmo indo, sem que eu quisesse que partisse. Foi como se sua presença tivesse se dissolvido no tempo. Sequer precisou se despedir. Você também não fez questão disso. Nem eu queria ouvir.

Não sei se minto para mim mesma quando penso que te amei. Não sei se eu continuaria achando que houve amor se você não tivesse ido. A verdade é que você nunca sequer ficou. E meus sentimentos nada mais foram do que projeções flutuantes, que só se manifestaram por eu saber que você nunca esteve ali. Se eu tivesse certeza sobre você, talvez jamais tivesse te amado. Nem mesmo por poucas horas que fosse.

Agora não sei se te amei ou se apenas inventei, para tapar um buraco de sentimentos que nunca existiram. Não sei se te amei porque quis, porque precisei, ou apenas porque senti te amar. Não sei nem mesmo se senti o que quer que fosse. Mas você foi embora. Eu nunca irei saber.

16 de dez de 2011

Desejos insaciáveis


E então, com meu carisma eu lhe conquistei. Mandei flores, bombons. Olhava para você como se fosse uma joia rara. Você acreditou. Eu sabia que não podia, mas mesmo assim lhe desejei, queria você para mim.

Usei do charme, das palavras ditas na hora certa, do sorriso e até do sexo para me aproximar. Cheguei rápido e arrebatei seu coração. Não esperava, até também passei a acreditar naquela ilusão. Mas assim como entrei de repente, recobrei a consciência em pouco tempo. Voltei ao normal. Ao meu normal.

Olhei para você e vi uma pessoa linda, mas que eu usei. Experiência, creio eu. Tentativa de ser feliz. E fui por aqueles breves momentos que passamos juntos. Que pareceram uma vida. Uma eternidade.

Isso que eu não queria: que fosse eterno. É um desejo louco que tenho de querer o que não posso. Como um diabético que quer um bolo. Preciso me remediar para saciar esse desejo, que sempre vou ter, que não tem controle. É maior que eu.

Ao ver o seu corpo, lembro disso. Não posso, não devo, mas vou atrás. Me delicio na sua pele e depois vou embora. Mas não é como se nada tivesse acontecido. Pelo contrário. Vou embora sabendo que eu posso desejar, que eu posso querer, que eu posso ter.

Não devo fazer isso com você, mas a sua silhueta ao me amar, o seu rosto de satisfação com o prazer que proporciono e seu sorriso ao gozo me fazem voltar. Voltarei sempre. E farei você feliz novamente. Mais uma tentativa. E sei que estará lá para os meus caprichos e os meus desejos. Momentos de loucura.


8 de dez de 2011

Labirinto




Meu coração é um labirinto. Onde todas as vezes em que acredito ter me achado, eu me perco de novo. Me coração é um imenso labirinto que talvez tenha muitas saídas. Mas não sei onde nenhuma delas está. Não faço ideia de onde possam dar.

Pequenas memórias perdidas
Um dia me embriaguei, me droguei demais, achando que assim me sentiria livre. E acordei na cama de uma pessoa que eu sequer conhecia 24 horas antes. Como sempre acontece em meus sonhos indesejados, fechei os olhos com muita força implorando para que quando eu os abrisse, visse meu quarto à minha volta. Deitada na cama em que sempre reclamei dormir todos os dias.

Mas diferente do que acontece em meus sonhos, meu desejo, por mais intenso que fosse, não foi atendido. E acordei ali, em um lugar que eu não conhecia. Transformei meu labirinto em uma prisão que me persegue onde quer que eu vá. E minha casa, meu quarto, que tanto reclamo por me aprisionarem, talvez sejam meu único refúgio.

Mas não posso suportar a ideia de ser tão dependente das mesmas pessoas, de um mesmo e único lugar. Talvez minha vida seja um eterno procurar saídas que nunca chegaram a existir. Talvez me sinta tão segura a ponto de ficar completamente perdida. Talvez eu precise quebrar alguns muros para fugir de mim.

Cegueira
Meu coração é um imenso labirinto, tão grande, que muitas vezes me canso. E sonho poder me abandonar apenas alguns minutos, só para respirar um pouco o ar fora dali. Mas não há abandono e me encolho nos cantos. Busco abrigo nos cantos de mim.

Talvez exista outro lugar sem tantas paredes que tapem minha visão. E eu poderia admirar o horizonte, sem nenhum muro de concreto à minha frente. Queria poder enxergar o céu, o mar, as flores, de forma que meus olhos limitados não veem. Limitados ao labirinto em que sempre me perco.

Meu coração é um imenso labirinto que não me deixo enxergar a vida. Meu coração dói: tantas e tantas vezes, e eu sequer sei porque. Talvez meu labirinto não caiba em mim...

4 de dez de 2011

Pseudo-atriz?




Sempre quis interpretar, acreditando que assim encontraria uma possibilidade de ir além de mim. Até perceber que não sei atuar. Meu desejo sempre foi me libertar de mim mesma, das amarras que me imponho sob justificativa de uma sociedade que tudo regula e nada aceita. Fingir ser outra pessoa de nada adiantaria, quando tudo que eu queria, tudo que me bastaria, seria ser eu mesma.

Encontrei como solução berrar o que sou e usar como desculpa a atuação. Mas não sou uma personagem. Todas as palavras que grito são minhas. Todos os movimentos de meu corpo são meus. Talvez eu seja egoísta demais para emprestar minha alma a outra personagem, além dos vários eus que posso ser – e sou o tempo todo.

Demorei tanto tempo querendo encontrar um lugar para mim, até perceber que esse lugar não existe. Existe apenas o que há dentro de mim. O meu lugar sou eu mesma, independente do lugar em que eu estiver. E não há espaço para interpretações nesse espaço. Não as deliberadas.

Ou digo uma mentira, já que me interpreto todos os dias?

3 de dez de 2011

Monstra

Foi parida. Cuspida à vida com muitos olhos, ouvidos e corações. Uma anomalia da natureza, passou a infância com vergonha de si mesma, repudiada em ambiente hostil. Não se encontrava onde vivia. Teve o primeiro orgasmo aos 7 anos, na quina da cama, com uma foto do Márcio Garcia.

A monstra cresceu. Sem deixar que a repressão corrompesse sua alma. Mas nunca deixou de tentar (ou fingir querer) corromper os sentimentos. E para extravasar todo amor que sempre sentia, escrevia poemas que nunca diziam nem nada diriam. O sentimento não se explica nem se prevê. Apenas se sente.

Todos os dias se apaixonava. E sofria. E mentia para si mesma,quando dizia para quem quisesse ouvir que odiava o amor. Julgava os outros por dizerem o que não condizia com suas perturbações mentais. Mas não entendia que sua mente também perturbada a enganava, e sem perceber, ela mentia.

(anotação n° 1)
Procurei no dicionário a definição de “ódio”. Tomei um susto quando uma das primeiras palavras listadas foi “amor”.

Não há lógica nem razão em discursos sobre o amor. E só para lidar com a dor, a monstra queria – mesmo sem querer – uma satisfação do sentir. Ela dizia sonhar em manipular mentes - seria mais fácil. Mas jamais suportaria uma essência humana que permitisse a submissão de seu coração à manipulação. Medíocre e limitada demais para ela.

Ouvia demais e se assustava com o tudo que escutava. Via demais e ficava na dúvida se realmente via. Falava demais sobre o que sentia. Mas para sua sorte, podia canalizar tudo isso nos vários corações que tinha. E nas inúmeras formas diferentes de amar, que sempre descobria.

A monstra poderia ser uma eterna sofredora deslocada. Mas em vez de se esconder e lamentar, foi à rua e vive a vida. E digo que apesar de toda sua loucura, esquisitice, idiossincrasias... invejo e amo a monstra que tem tantos corações e consegue se apaixonar todos os dias.

(anotação n° 2)
Posso encontrar no dicionário a definição da palavra “inveja” como “a autoprojeção que não se manifesta em mim”? A monstra também sou eu. Mas em outro sentido. De outras maneiras.

24 de nov de 2011

Penitência








Volto para mim mesma. Volto e revolto tantas vezes, que nesse meio caminho muitas vezes me perdi. E tentei me encontrar nos lugares mais distantes, sem entender que a paz residia no silêncio da minha alma. Ainda repousando à espera de que eu a encontre.

Por mais que eu mergulhe em mim mesma, tudo está tão fundo, não consigo me achar. Às vezes, afogo – em lágrimas. Outras, deixo a correnteza levar.

As águas que não choro inundam rios em meu coração... quando ando sem ânimo demais para nadar. Me deixei levar tantas vezes, nunca saí do lugar.

Ao pensar no quanto eu era grande, ocultei – mascarei? – de mim minha mediocridade.

Busca pela redenção
É querer expulsar as pessoas de minha vida, mas me dar conta de que não consigo abandoná-las nos meus pensamentos.

E admitir não saber distinguir a diferença entre lágrimas e sorrisos, como se ambos fossem um só – materialização de algo que transborda dentro de mim, por razões que deveriam ser opostas, mas são tão iguais. Não há razão.

Ver a imagem distorcida no espelho, embaçada e ao mesmo tempo demarcada. Até aceitar que não é necessário enxergar traços minimamente definidos, porque eles simplesmente não existem. Pelo menos não em mim. Não agora.

Autoperdão
É respirar fundo e buscar em cada átomo de oxigênio a redenção da alma. Que talvez nunca chegue. Talvez chegue a cada segundo, mas eu não consigo perceber nem sei se quero me perdoar.

Até que ponto eu devo me perdoar pelos erros que cometo ou acredito ter cometido?

Acredito que uma das maiores manifestações de amor é aceitar as próprias limitações; e também a dos outros. Não se cobra o que não se pode dar. Quando o que se tem do outro não agrada, a melhor opção talvez seja o abandono.

Mas eu... e eu? Eu não posso abandonar a mim mesma.

Mesmo acreditando não haver respostas. Não sempre. Não na hora que eu quero.
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A literatura não precisa ser entendida, o sentimento não se explica. Odeio interpretações de texto. E odeio escrever em folhas com linhas pouco espaçadas, que limitam o tamanho de minhas letras. Resta apenas meu amor pelas palavras. Então escrevo para que meus sentimentos não se percam ao vento. Minha grafia aprisiona em uma eternidade limitada o que pensei naquele único segundo que passou e nunca mais vai se repetir.

18 de nov de 2011

O segredo do ponto do conto



Um ponto é um ponto.
Muitos pontos camuflam contos, alguns escondidos em corações desapercebidos.
Às vezes, quando se dão conta dos pontos, pontuam: surgem entre vírgulas, exclamações e interrogações, lágrimas e sorrisos.

Ninguém disse que na vida pode haver apenas um ponto.
Apenas um ponto final.
Sempre haverá um canto em um papel para serem rabiscados contos que iniciam ou contos que podem continuar sendo contados, ou apenas registrados, relembrados.

Então conto que meu conto não tem ponto.
Tem muitos pontos. Mas não o ponto.
Que está escondido em um canto.
No cantinho da bic que sempre estoura antes de falhar.

Quantos pontos pode ter um conto?
Joga tudo num canto atravessado por inúmeras pontuações.
Quero todas embaralhadas e perdidas, fugidas da norma culta, das cabeças que pensam mais no infinito das almas do que nas restrições de regras gramaticais.


Quero dizer que no meu conto saí rabiscando muitos pontos desconexos, sem pensar no enredo, do meio, muito menos no final.

Voa-se livre nas brechas desses cantos, de contos mal resolvidos, das verdades negligenciadas e mentiras inventadas – nas linhas com ponto ou sem ponto.

Quero um canto para escrever um conto e chamar de meu.
Quero muitos contos.
Todos meus.
Mas sem pontos – todos.
Todos sem a restrição de um ponto final.

17 de nov de 2011

Desabafo


*Texto enviado por Maria de Las Tequilas

Estava pensando sabe... eu penso muito. Eu bebo muito. E pensar e beber ao mesmo tempo não dá certo, ou dá?

Como as pessoas podem ser tão diferentes? Como alguns homens podem suprir, mesmo que temporariamente, todas as suas necessidades e alguns outros não? O mais desesperador é saber que há uma longa caminhada até o momento que você encontre aquele que te preenche totalmente. Que te satisfaça de corpo e alma, sem faltas, falhas ou faíscas.

Veja, eu terminei com o Ele. Num resumão: estava cansada, chateada e desmotivada. Três palavrinhas que conseguem definir bem. Terminamos na sexta. No sábado, fui encontrar um amigo de uma amiga, que já tinha conhecido, porém não como gostaria.


Em um fim de semana ele conseguiu ser completo. Cheguei por volta das 21h. Bebemos umas cervejas, fumamos um beck e ficamos rindo de alguma besteira na tv. Beijo quente, gostoso, me tomou inteira só com o olhar. Lá pras 23h pedimos uma pizza, fumamos outro beck e começamos a ver um filme... e então ele me pegou e meio que sufocou entre seu braço e peito. Mas foi ótimo. Me senti protegida ali. Na hora de comer a pizza, teve uma brincadeira aqui e ali, acabamos fazendo sexo no chão da sala.


Terminado o filme, bem depois do que deveria, conversamos, tomamos mais cerveja, fizemos mais sexo. Deitamos, dormimos. Ele jogando a perna em mim, acabando com a minha coluna.
Acordamos a primeira vez na madrugada, o amigo que mora com ele chegou mais que bêbado e estava com dificuldades para tirar o tênis e dormir. Engraçado, no mínimo. Não teve sexo, mas ficamos um bom tempo trocando beijos. Acordamos outra vez, ele estava roncando muito alto, precisei pedir pra ele mudar de posição. Acordamos por volta das 7h, com o sol matando a gente. Esquecemos de fechar a cortina. Aproveitamos e transamos. Ué.


Dormimos mais, acordamos lá pelo meio dia, com um abraço gostoso... Um lucky strike só de calcinha na janela, em silêncio, processando tudo. Enfim, mais sexo. Nessa parte, eu já não sentia meu corpo. De café a pizza gelada de ontem... um pouco de tv e saímos para almoçar. Ele resolveu me mostrar um restaurante de comida vega... curti. Só não gostei do charminho na hora de pagar a conta. Insistiu e brigou que queria por que queria, e eu não tive opção. Voltinha na praia. Voltamos pra casa, abrimos uma cerveja, eu precisava responder uns emails de trabalho (mesmo sendo domingo...) e ele ficou me observando e enrolando unzinho. Me obrigou a ver um filme de terror horrível.


Me obrigou porque sabia que eu ia ficar com medo e ia ficar escondendo de dois em dois segundos o rosto no peito dele. E do peito para o pau, foram 15 minutos de filme, e depois mais um pouquinho de beck....

Tomar banho com ele é divertido. O corpo dele é gostoso de ensaboar, sem malícia. E os carinhos que ele me fez? Incríveis. Mas os tapas e as ordens de "rebola mais" também foram...
Deu 19h, 20h, 21h, precisei ir pra casa. Ele precisava descansar e eu também. Me levou no ponto. Esperou comigo o ônibus...


Ele foi completo. Ele me deu o fim de semana que eu gostaria de ter todo fim de semana com meu namorado. Ele conseguiu, em exatamente uma semana (pela internet) tudo o que o outro demorou sete meses e não conseguiu. Talvez isso tudo seja uma grande ilusão, mas eu não ligo. Prefiro viver e gastar meu tempo tendo orgasmos a ficar pensando nessa ilusão chamada realidade. E enfim, pergunto a vocês, queridas amigas, como posso viver com tantos sentimentos, boquetes e carinhos? Enfim, por fim, concluo: eu não estava equivocada. Foi uma ótima opção ficar solteira.



31 de out de 2011

do útero que me pariu


Tentei escrever, mas não consegui. Fiquei assustada com as palavras que não eram cuspidas de minha boca, nem riscadas no papel. Eu sempre quis compor poemas. Mas sei que não sou de natureza organizada para conceber letras bem alinhadas. Meus pensamentos são muito soltos para serem formatados em belos versos. Uma desculpa que inventei agora, para justificar a grafia que não voa tão alto, tão rápida quanto meus sentimentos. Sempre perdidos, bem longe do chão. Distantes de mim.

Sou filha parida de muitos úteros, nenhuma casa, nada é meu. Poderia ter tudo que tocasse. Mas tudo que preciso levo comigo, guardado em mim. Não quero mais nada além disso. Não quero ser tocada.

(...)



Mamãe me criou com laços de fita no cabelo e belas canções de ninar. Velava meu sono em um quarto enfeitado com bonecas de porcelana e ursos de pelúcia. Eu passava os dias ensaiando poesias, hábito o qual me dediquei mesmo antes de aprender a escrever corretamente. Ela aplaudia meus rascunhos bordados com letras infantis. Não levo em minha memória recordações de tardes em que brincava correndo pela rua, sujando o vestido de seda limpo e bem ornamentado. Eu era feliz assim, sozinha em meu canto com papéis de carta e canetas coloridas.

Mas não sou nada disso. Cresci, não sei quem sou.

(...)

Quando fui cuspida à vida não chorei. Cansada, aceitei com resignação a incumbência de suportar minha alma presa nesse embrulho de carne. Passaria meus dias tentando esquecer a sensação de ser livre. Quase consegui.


Meu castigo por ousar pensar em renegar o útero que me acolheu seria um só: eu jamais conseguiria descrever o longe que meus pensamentos pudessem atingir. Eles sou eu, mas estão muito fora de mim. Não os alcanço. Viro do lado avesso, vasculho tudo dentro de mim. Nada adianta. Eles estão lá fora, não sei se encontro mais alguma coisa aqui dentro.

Quando fui cuspida à vida não chorei. Mesmo após o médico dar incessantes batidas naquela aglomeração de carne que agora era minha. “Já nasceu morta”, sentenciou.

(...)

Quando eu tinha quatro anos, tentei explicar à mamãe o que eu sentia. Ela não entendeu. Ninguém entendeu. Eu ainda não sabia escrever. Peguei a caneta e enfiei em minha vagina. E fecundei ali todas as idiossincrasias que ensaiavam se manifestar em mim. Meu útero latejava. Precisava de mais líquido.

E da fecundação que fiz em mim, mais uma vez nasci. Eu saí de mim mesma, gemendo e gozando uma vida que ainda não conhecia. Depois nasci muitas e muitas outras vezes, parida de outros úteros, alguns muito diferentes do meu. Nasci em cada lágrima caída, em cada sangue derramado, em cada desejo saciado, em cada amor que não senti.

Mas não escrevi um único verso sequer, sobre nada disso.

(...)

Sou filha... de uniões incoerentes, conflitantes, contraditórias. Sou fruto do meu amor e do meu não-amor por todo esse efêmero que é a vida. Sou concebida de novo e mais uma vez a cada instante em que me encontro, e me perco, e me abandono. Sou refém dos sentimentos que não sinto, que não tenho.

Sou uma poeta que não sabe escrever.

23 de out de 2011

borrão






(...) e procurou saber em que momento as curvas de seu caminho se afastaram tanto de quem ela foi tão próxima, durante tanto tempo. E fizeram com que ela olhasse com desprezo para quem um dia se viu refletida. E fizeram com que aquele que era capaz de enxergar em sua alma supostas verdades que ela sequer sabia admitir para ela mesma, hoje fosse incapaz de entender o que ela dizia claramente, com todas as letras.

Quem havia mudado tanto? Ela ou ele? Ou foi algo que aconteceu aos dois ao mesmo tempo? Caminharam por lados opostos sem se darem conta, sem dizerem ao menos um até logo, até que ela percebesse sozinha o quanto estavam distantes. Distância que o transformou apenas em um ponto embaçado às suas vistas. Sequer poderia ser referência para alguma coisa, de tão pequeno e disforme. Agora apenas um borrão de proporções medíocres que não mais a interessa. Que às vezes mesmo sequer suporta a presença, tamanhas são as diferenças.

E não entende como ele não conseguiu perceber isso ainda. Ou finge que não percebe. Não consegue compreender como foi que em algum momento de sua vida pôde achar que sua redenção estaria ali: redenção de suas confusões mentais, de sua essência perturbada que teria nele sempre um refúgio.

Como pode o ser humano mudar tanto assim em tão pouco tempo? E se atormentar com dúvidas que nunca imaginou que poderiam existir. Ela saiu tanto de si e por isso mudou tanto, que já não era mais ela. Ela buscou se livrar da amarras que a prendiam. Mas não consegue se livrar de vez dos rastros de suas antigas pegadas.

Ainda não sabe se é capaz de sentir algum tipo de dor por ter se distanciado tanto do não-lugar para onde deveria ir. Talvez viva em constante torpor. Ainda não se deu conta do choque que é ser totalmente sozinha. O que ela sente agora - por incrível que pareça - é alívio, como se tivesse se livrado de um peso. Talvez se sinta em paz, por saber que ninguém mais é capaz de entender o que esconde em seu coração.






21 de out de 2011

brincadeiras infantis





esconderijo
Sou uma menina que gosta de brincar de pique-esconde. Mesmo sabendo que não posso me esconder de mim mesma. Eu me divido em vários pedacinhos que se perdem. Separados, não fazem sentido. Juntos, sou eu.

uma não-infância
Você se divide em tormentos que sequer aceita e pede que eu te entenda. Você não sabe brincar e leva a sério todos os esconderijos que inventa. Você está perdido demais para admitir o quanto se perturba com brincadeiras que poderiam ser inocentes. E tenta se apoiar em minha confusão.

casinha pão de mel
João e Maria eram duas crianças que se descobriam todos os dias. E resolveram ficar nus, para desvendar os mistérios do corpo um do outro. Maria se despiu demais, mas não mostrou nem metade do que queria. João tirou pouco da roupa e foi embora sem explicação. Mas levou um saco de doces, com pirulitos, balas, confeitos coloridos. E foi jogando a cada passo, um pouquinho pelo chão. Assim Maria sempre saberia onde encontrar João.

perdição
Sou uma mulher que não tem medo do que sente. Sou uma mulher que não admite covardia. Sou uma mulher que não suporta o abandono. Sou uma mulher que não aprendeu (nem quer) a perdoar.

pique-esconde pique-esconde pique-esconde pique-esconde pique-esconde pique-esconde pique-esconde ....

19 de out de 2011

Apenas hoje


É dito que a arte nunca vem da felicidade, algo que sempre concordei. Quando escrevo estou triste, e com minhas palavras embaralhadas tento questionar o porquê dessa tristeza. Mas hoje, só hoje, quero achar essa afirmação injusta. E por sentir uma paz em mim que sequer sei explicar, eu preciso me expressar e contradizer o que sempre acreditei. A dor não é - nem pode ser - para todos os dias.

Quero deixar registrado nessas linhas o quanto gosto de fechar os olhos e respirar fundo quando sinto uma brisa beijar meu rosto e me abraçar com carinho.

E contar que amo contemplar o mar em um final de tarde ensolarado, enquanto sinto o cheiro de sal e me perco em meus sonhos.

Preciso dizer o quanto me faz bem sorrir bem alto, pelos motivos mais bobos que me alegram de maneira que nem entendo.

E que ao chorar eu limpo minha alma e alivio meu espírito, então peço que deixem minhas lágrimas rolarem à vontade.

Porque não importa minha alegria ou tristeza, quando estou sozinha em minha cama, numa tarde fria e chuvosa, durante essas horas eu sei o que é estar em paz. Quando o céu chora é porque preciso lavar meu coração.

...

Eu quero viver muito. Mas de tanto procurar um rumo, cansei. E percebi que não há caminho pré-determinado a ser traçado por mim. Há trajetos que escolho percorrer todos os dias. Alguns se impõem à minha frente. Quase todos são escolhas que fiz. Não posso reclamar da vida se não sei decidir o que pode me fazer bem.

Nunca saberei para onde estou indo. Apenas quando olhar para trás, saberei o que andei. Apesar de nunca saber com certeza onde estou. Talvez eu esteja constantemente perdida. Mas disse Clarisse Lispector: “Perder-se também é caminho”. Será?

O que não posso fazer é parar de andar. Não importa se meus passos são rápidos e muito largos, como eu gostaria, ou se são curtos e lentos demais, como eu sempre acho que são. Talvez um resultado de nossa modernidade líquida, diria Bauman. Estamos sempre muito ocupados para perder algum tempo sentindo – qualquer coisa que seja.

Então percebi que o lugar em que eu chegar não vai me dizer de fato o quanto caminhei. Essa resposta eu não encontrarei na distância percorrida pelos meus pés. Mas no que eu tiver aprendido sobre mim. No que eu tiver aprendido a sentir.

E hoje, excepcionalmente hoje, por motivos que nem eu sei...

Hoje eu meu sinto feliz.

12 de out de 2011

Carne


Antes de dilacerarem o corpo, vendeu a alma. Foi negociada em uma mesa cirúrgica, entre facas, agulhas, anestesias e revistas photoshopadas da playboy.

Reduzida a um pedaço de carne que pode apodrecer a qualquer momento, finge frescor untando-se com quilos de conservantes.

Genitalizou o sexo, trepada agora só se for como no filme pornô. Ela nem precisa gozar, contanto que gostem.

Expiou após a mutilação, extração de todos os pedaços de gordura e nervos; comum a todas as massas, mas que nessa aglutinação de nada se tornou objeto estranho. Precisava ser expelido.

Tentou se tornar um pálido reflexo de uma perfeição inexistente. E quando se olhou no espelho, não viu. Enxergou fatias de plástico, que nada diziam sobre o que ela era.

- Por que você vive, se ninguém enxerga em seu rosto, em seu corpo, o que você é, o que você foi? De tanto ninguém te enxergar, nem mesmo você se enxerga mais.

- Meus olhos apodreceram. Fazem com que eu veja o que não quero ver. Minhas mãos tocam uma pele flácida que eu não quero ter. Estou suja. Estou suja.

Viu um caldeirão gigante com látex derretido, pulou dentro. Não pôde mais se mexer, mas sustenta perfeitas – e enrijecidas – formas de borracha. Fede a silicone.

7 de out de 2011

E é exatamente por isso que nós viramos lésbicas

*Texto enviado por um de nossos leitores

Eu não sei de onde veio inspiração para essa frase absurda. É claro que eu ou minha amiga nunca seremos lésbicas. Adoramos homens. Adoramos suas barbas, seus músculos e seus pênis (sim, no plural). Mas é inegável que aqueles chopps estavam caindo muito bem.

Mulheres que bebem sempre têm uma piada a mais, um sorriso a mais, uma jogada de cabelo a mais. Mulheres que bebem são fatais. Quando vejo um casal num restaurante nunca deixo de notar o que estão bebendo. Eu me sinto na obrigação de imaginar mentalmente porque na maioria das vezes ele bebe álcool e ela suco. E nunca imagino algo tangível. Aliás, nunca imagino algo tangível para nada.

Estávamos lá, na mesa de bar numa cena quase ridícula: ela esperando o namorado voltar de um culto religioso que preferimos não comentar ; eu ainda com raiva do meu digníssimo, que fez charminho a respeito do meu direito de passar a noite de sábado com ele, mas, depois de uns gritos no telefone, tudo se resolveu e ele estava à caminho dos meus braços. Pena que ele more do outro lado da cidade, foram intermináveis duas horas e mai esperando pelo beijo de reconciliação.

E foi nesse cenário com chopps gelados, numa noite fria que ficava ainda mais gélida com o sentimento de “somos sempre trocadas”, que começamos a conversar sobre o quanto os homens têm a sutil capacidade de nos colocar em segundo ou terceiro plano. A final do jogo de futebol é mais importe. O almoço com a mãe é muito mais importante. Terminar (no domingo) aquele relatório do trabalho é mais importante.

Até que ponto aguentamos essa falta de dedicação? Não faço ideia. Só queria que eles soubessem que tudo tem um limite. Que nós somos fortes, mas em uma semana com a TPM atacada podemos desistir de tudo e começar a colocar à frente deles a manicure, a visita à costureira, o “ir ali ao shopping trocar uma blusa”. E isso seria o fim.

Só queria que eles nos tratassem como nós os tratamos.
E é por isso, e tão somente por isso, que nós viramos lésbicas.

Por Maria de Las Tequillas.

23 de set de 2011

Conto de fadas


Não quero mais ser a princesinha do conto de fadas. Não quero mais ser a personagem com personalidade definida, espaço determinado. E se, de repente, me der vontade de gritar para o mundo? Mocinhas só gritam para pedir socorro aos seus príncipes.

Essa história não tem lógica. Eu me perco entre as linhas do que escrevo e do que é escrito sobre mim. Seria mais fácil se eu pudesse me enfiar debaixo das palavras. Talvez seja isso mesmo que me falte. Sou muito sozinha, mas nunca soube o que é viver na solidão. Posso tentar me esconder desse enredo. Mesmo sabendo que não posso fugir de mim mesma.

Quem sabe me tornar coadjuvante nos contos dos outros. Eu não começaria no “era uma vez”. Começaria lá no meio da página, mencionada em um parágrafo qualquer como quem não quer nada. O problema é que nem eu me conheço a ponto de poder dizer quem sou em algumas poucas linhas. Só a leve noção da imensidão (ou do nada) do que posso ser me assusta.

Mas pelo menos assim eu não seria protagonista, afinal, não faz bem ser personagem principal na vida de outra pessoa.

Restos de nada

Não quero minha história contada nesse livro, com um início, meio e fim. Ficaria desesperada ao perceber que as páginas estão acabando. Que graça tem viver se a gente souber exatamente onde fica o “ponto final”? Eu não quero saber do “ponto final”, mesmo se for precedido do “felizes para sempre”.

Eu quero a eterna dúvida de quando, de fato, uma história termina. Eu quero a tristeza constante do fim de histórias inacabadas. Eu quero milhões de histórias, todas sem finais. E isso meu conto de fadas não pode me dar.

Vou jogar meu livro na fogueira, antes dele ser terminado. Ninguém vai ler sobre mim. Porque eu quero, eu preciso ser muito mais do que me dizem essas linhas.

E que vá para o inferno meu reino, meu castelo, meu príncipe encantado. Eu só queria poder viver.

18 de set de 2011

Fuga


Gosto de você de uma maneira muito egoísta. Não que eu queira você só para mim. Eu sequer te quero. Mas eu quero sugar de você tudo o que não sou, mas que sei que poderia ter sido. E é tentando te absorver que me afundo em você cada vez mais. Mesmo sabendo a imensa distância que existe entre nós dois.

Não te aceito por orgulho, você não me quer por medo. E assim nos afastamos cada vez mais um do outro. Mesmo sabendo que você está ligado a mim, por motivos que desconheço. E na frustração de não te ter – de sequer te querer - fico perdida em meus devaneios, que me levam à lugares tão longe de mim.

E é me perdendo que te encontro. Mas não quero, não aceito, não posso... ter alguém tão próximo assim.

10 de set de 2011

Mensagem subliminar


O que você pensa que é a imagem acima? Faz referência a quê?

Pois bem, em minhas andanças pelas redes sociais, me deparei com essa foto postada por uma "amiga" que estava toda feliz: era um agrado que havia comprado para a mãe naquela manhã. Eu fui lá e curti. Deixei a mensagem: "Sensacional". Ela, em resposta: "Isso é uma delícia".

Fiquei pensando como o olhar sobre algo é diferente para cada um e como palavras soltas podem sugerir uma infinidade de interpretações. Achei que o presente para a mãe era uma forma de alegrar o dia, por isso achei sensacional. Ela, a seguir, disse que era uma delícia. Sim, realmente é.

Mas em que estávamos pensando mesmo? E você, em que pensou?

9 de set de 2011

pseudo-loucura


Ela vivia pintando o cabelo. Bebia muito, adorava fazer escândalo. Suas risadas eram muito altas, sem querer acabava chamando a atenção. Tudo era exagerado. Tinha o péssimo habito de falar demais. Teimosa ao extremo. Chorava muito. Por pouca coisa.

Tinha crises depressivas, alternadas por súbito bom humor. Nunca sabia o que queria, estava sempre em dúvida de tudo. Vivia perdendo suas coisas. Vivia cansada de tudo. Vivia querendo muito mais do que poderia ter. E para compensar toda essa falta, ela enlouquecia por aí.

Então, perguntaram:
- Você acha que se apaixonariam por alguém assim?
- Eu detestaria ser o tipo de menina apaixonável.
- Menina apaixonável?
- Sim. Aquela que todo mundo acha “a menina perfeita”, que todo mundo se encanta e acaba se comprometendo, porque ela sim é uma menina legal, que vale a pena.
- Sinceramente, eu não te entendo.
- Eu não quero alguém que fique feliz e diga “estou apaixonado por aquela mulher”. Quero alguém que se desespere ao constatar “puta que o pariu, não vai ter jeito, estou apaixonado pela maluca daquela mulher”. Se não for para me amar assim, não tem graça.

Muita gente dizia que ela era louca.

6 de set de 2011

Redenção


Recordações antigas
Você chega me sufocando, como se quisesse espremer cada pedaço de mim e guardar em sua caixa, trancada e escondida no fundo de sua gaveta. Seu guarda-roupa não tem nada além de mofo e poeira, a escuridão só faz agravar o vazio ocupado por objetos inexistentes, que você inventa toda vez que me vê.

Não quero perder a referência de mim nesse meio de nada e nem quero ser a única referência na solidão que você se impõe. Faz frio agora, mas sua mão sempre é gelada. Não pense que posso aquecer você, não nasci para ser a salvação de ninguém. Também nunca te pedi para ser salva.

Quero que se foda toda essa sua loucura, essa obsessão de me ter o tempo todo. Não vou me afundar em você, porque antes eu teria que me desprender de mim. E viver na dependência de algo fora de mim, que não sou eu... no que eu me tornaria então?

Se eu sou feliz? Que pergunta mais sem nexo é essa? O que é felicidade? Apenas pessoas dementes acreditam que podem existir sob felicidade plena, pois não se questionam sobre a vida, muito menos sobre elas mesmas. Não quero alguém que tente me fazer feliz. Eu choro demais por motivos que são só meus, o tempo todo.

Quero alguém que me faça sorrir, mais do que me faça chorar. Alguém que me deixe dormir sozinha, perdida na nostalgia de meus sonhos. E que me deixe tomar banho sozinha, pois é sozinha que limpo a sujeira do meu corpo. Sem promessas desmedidas. Nunca saberemos as que realmente poderemos cumprir. Então me solte.

Últimas notas em meu diário
O amor já é angustiante demais para que eu me veja obrigada a perder a paz por não compreenderem que o que eu sinto é profundo a ponto de não precisar me fincar à terra, como raízes que mergulham cada vez mais baixo, afundando... Estou muito apaixonada (por tudo) para limitar a dedicação de todo o meu amor ao solo. Eu também quero o mar. Também quero o céu.

Eu quero você.

3 de set de 2011

Déjà vu



A coberta já estava quentinha quando ele veio devagar, na surdina. Não saiu deitando ou pulando em cima. Pela parte baixa da cama, sinto um vento frio nos pés, achei que tinha descoberto pelo mexer do sono. 

Ainda sonolenta, um toque de mãos levemente sobe pelas minhas pernas. Uma respiração lenta. Parte do rosto dele encosta em mim, beijos e carícias. Excitação. E nem chegou no joelho...

Vejo a lua do lado de fora. Lua cheia. Viro e observo as estrelas. Pelos arrepiados. Rosto quente. Uma certa tontura. Lágrimas escorrem pelo rosto e molham o travesseiro. Insônia. Aquela sensação voltava a tomar conta de mim. Levanto, olho para a porta. Esperança de um déjà vu.

Água. Janela. Ligo a TV. Sofá. Mais água. Os dias não passam.

Volto. Fecho os olhos. Mentalizo: vem de novo e termina o que começou. Nada. Tem que ser espontâneo. Vira. Desvira. A mão desce pelo corpo desejando o calor dele. Não é a mesma coisa. Acredito.

Pense positivo. Solte a imaginação. Acredite de verdade. Fato. Retorne. Encontre o ponto exato: do início daquele toque ao sorriso de cansaço, satisfação e felicidade. Volte a dormir esperando o amanhã.

O amanhã...

1 de set de 2011

Beijo Canibal


“Eu me pergunto que sede doentia é essa que te leva a tentar atingir as regiões mais sombrias de mim mesma. Quem dá a lição de Trevas, quem a recebe? Você decidiu se tornar uma espécie de areia movediça na qual eu me enterraria, mas é em você que eu vou penetrar profundamente. Vou transformar os dados do jogo. Eu estou cagando para a tua lista. Vou seguir os meus instintos. Não tenha medo, você não vai se decepcionar. Recebi o dinheiro sem problema. Em breve, enviarei a fita magnética. Há em você algo de nojento que me atrai e algo de quase limpo que me enoja. A menos, é claro, que você seja uma espécie de gênio que eu estaria parindo. Por ora, eu exploro, observo, apalpo, cheiro, lambo, eu provo, aprendo, escuto, anoto, esqueço, rio, berro, sofro, gozo, me desloco, desapareço, me subtraio do teu olhar, eu sumo. Encontro em mim um núcleo sempre mais duro, sempre mais escuro, que flutua na transparência da minha carne. Suponho que seja essa iguaria que você queria ter dentro da boca para chupar suas lantejoulas sombrias. O que você está aprontando sozinho na tua casa de frente para o mar? De grandes jorros de misticismo adolescente devem queimar seus miolos. A obsessão de escrever esse livro, de ir até o fim, de fugir das formas e das pressões, de encontrar essa tal liberdade com a qual você nos martela os ouvidos, essa liberdade que eu tenho e te empala. O artista é um miserável. Fadado à inconcludência. À insatisfação permanente. Ao sofrimento. Cada segundo deixa um vestígio em mim. Mas você? Descobri certas coisas. Esteja pronto para sofrer silenciosamente quando minha boca se aproximar de você, esteja pronto para a dilaceração, esteja pronto à dissolução, pronto para esquecer a escritura que derreterá na minha boca, as palavras que se dissolverão, se tornarão irreconhecíveis. Não haverá mais a linguagem, não haverá mais palavras. Dentadas...”

O Beijo Canibal – Daniel Odier

25 de ago de 2011

Sang

Foto: Orlando Calheiros


Ato I– Morta enquanto viva

Levantava e não escovava os dentes. De sua janela, via todos os dias a paisagem de concreto, cor de nada. Saia na rua de pijama listrado. Um dia acordou cansada da vida e raspou a cabeça.

Olhava para o céu escuro e abria a boca. Mas os grãos que caiam, todos secos e ásperos demais, não tinham cheiro, não tinham gosto. Implorava por um pouco de ar, mas respirava apenas poeira de cimento.

Ato II- Fecundação

Dissolveu todo o amor que guardava bem escondido em substância química forte, que quase a deixava sem ar, para ver se assim extraía do pincel alguma tinta. E pintou nos muros daquela cidade perdida o quanto queria se apaixonar todos os dias.

Mas pintou tanto, que as imagens ficaram todas iguais. Banalizou as cores mais fortes que poderia encontrar e as misturou em meio a paisagem homogênea. E seus traços perderam o tom. Já não havia mais diferença entre uma parede e outra. Continuava tudo escuro ou lavado demais.

Se não podia dar cor às construções, tatuou o corpo inteiro na esperança do verde, do amarelo, do azul. Só para ver se poderia existir algum tom em seu mundo, diferente do cinza. E se pintava toda, mas não existia cor. Ela se riscava, mas nada aparecia. Dela, brotavam apenas as lágrimas transparentes.

E foi riscando a pele, até rasgar a carne.
Foi quando nasceu.

Ato III- Nascimento

De seu corpo, brotou o vermelho naquele mundo. E a natureza se irradiou tanto com rubro, que quis extrair dela todo aquele tom. Espremeu sua alma, até o sangue brotar entre suas pernas. Até que de seu ventre escorreu o líquido. De seu útero, nasceu a vida. Com pernas abertas ela deu a luz.

Ato IV- solidão

Mas do que adiantaria tanta cor no mundo, se seus olhos insistiam em enxergar sozinhos? O sangue nunca pintaria sua alma sem cor. Talvez ela não devesse tentar dissolver em uma química tão pesada o amor.

21 de ago de 2011

Amante do tempo


Meus pensamentos voavam muito longe. Tão longe, que já perdi as contas de quantas vezes eu me perdi de mim. Meu desejo de ser devorada pelo tempo me cegava. Um desejo que nunca se concretizava, que ficava sempre naquele distante amanhã, que nunca iria chegar.

Em meio ao meu desespero, subi nesse altar e ofereci meu corpo como oferenda, na esperança de um consolo qualquer. Fiquei nua por inteiro, implorando uma resposta que me apontasse o caminho. Foi quando ele surgiu. Chronos. Imperioso, à minha frente, dizendo que não havia caminho algum. “O amanhã nunca chega para ninguém. Ao alcance de suas mãos, você tem apenas o hoje”.

E ordenou que eu me confessasse. E comeu da minha carne, bebeu da minha alma, me penetrou por inteiro para que eu pudesse enfim ver o que sempre esteve à minha frente, mas me era impossível enxergar. Durante nosso enlace, ele me fez revelar os segredos mais profundos. E enquanto eu chorava e amava, eu admitia, eu assumia as tantas vezes que sofri por querer demais viver. Que sofri por achar que eu deveria ser alguma coisa, sem saber exatamente o quê.

Então pediu que eu me entregasse totalmente a ele, que me abandonasse, para que pudesse entender. Eu me larguei. E foi quando deixei de me importar em viver, que comecei a viver de verdade. E foi só quando parei de me preocupar com o que devo ser, que descobri não saber nada sobre mim mesma; e finalmente me descobri um pouco. E entendi.

Bastou apenas me dar conta do presente.

Enquanto eu suava, tremia, ele murmurava obscenidades em meu ouvido, que me faziam ofegar além do que me seria suportável. Ele beijava minha boca e dizia que eu não precisava buscar algo que fosse a razão de minha vida, porque deixar que minha vida dependesse de uma única coisa seria restringir demais minhas inúmeras possibilidades de viver.

Eu não conseguia me concentrar em ouvir nada além de minha pulsação, mas entendia quando ele falava que eu não precisava me preocupar em ser alguma coisa, quando eu poderia ser tantas coisas ao mesmo tempo, cada uma delas representando pedaços únicos meus.

Precisei passar uma noite em claro para deixar o presente me envolver. Precisei implorar a Chronos que fosse responsável pelo meu gozo no agora, para descobrir que eu nunca iria me encontrar no amanhã.

E quando tudo acabou, ele me deixou aqui, nesse altar em que o adorei, apreciando os momentos mais simples, que só agora percebi o quanto podem me fazer feliz. O que não via antes, porque estava preocupada demais em viver um tempo que não é meu. Mas antes de me abandonar à solidão, deixou um bilhete para que eu sempre guardasse em minha memória nossa noite de amor.

Pediu que eu lesse apenas depois que ele partisse. Eu esperei. E quando ele se foi, busquei o pedaço de papel que agora repousa sobre mim. “Tudo tem seu tempo. Não viva na agonia de esperar esse tempo chegar, quando o hoje pode te consumir muito mais do que o amanhã”. Ele escreveu. Ele sabia. Ele me consumiu por inteira. Ainda consome.


Não quero ser covarde a ponto de não viver o agora, na esperança de um amanhã que nunca chega. E não quero ser covarde a ponto de negar que preciso muito desse amanhã. Mas preciso aprender a viver o hoje primeiro.

18 de ago de 2011

Um pouco de vagina em flor


Parte I – Hedonismo regado com esperma de caule

Vendi o corpo por água,
Apesar de a chuva cair todos os dias.
E minha vagina em flor teve pétalas arrancadas
Antes mesmo que pensassem em murchar

secando...
descolorindo...
morrendo...

Eu não queria sua beleza desperdiçada.
Abri bem as pernas.

E antes que as folhas caíssem,
Antes que os galhos secassem,
A vida foi ejaculada em mim.
Tantas e tantas vezes.

Tive muitos orgasmos, quase todos fingidos.


Parte II – Vampirismo vindo dos recônditos mais longínquos

Vieram de muito longe
Só para beberem em meu cálice.
Eu dei o líquido.
Engoliram sedentos
Até a fonte secar.

Meu esperma perdeu o aroma adocicado, misturado a tantos outros gostos.


Parte III – Autoflagelo

Desse caule cheio de espinhos
Tentei arrancar todos.
Com as próprias mãos.

Vi sangrarem feridas de minha carne.
Chorei gritos de ódio e de dor.

Continuei berrando,
Enquanto minhas mãos pingavam
(pingavam
pingavam
pingavam...)
Lágrimas que não deveriam ser minhas.


Parte IV – Final?

Sou uma santa que se prostitui todos os dias, pelo simples prazer de se humilhar. Sou uma louca lúcida, que vê o pouco da sanidade dissolver sob os olhos. Sou uma promíscua que se confessa sempre, apesar de não querer redenção. Sou uma virgem enfastiada, que se deixa ser estuprada pela vida.

15 de ago de 2011

Bacantes pós-modernas


Nós, bacantes, somos musas eternas; nossa existência não se limita a presença de nossa carne, quando nossos feitos continuam sendo lembrados, por muitos e muitos anos... mesmo que como referência do que “não deve ser feito”. Vivemos em função do culto ao falo que nunca nos satisfaz, porque nunca estamos satisfeitas; assim, em meio a floresta, amamos, adoramos Baco, deus do vinho, dos excessos, do sexo.

Nosso desejo de sentir todos os prazeres mundanos em sua plenitude não tem limites. Não há obstáculo que nos impeça de descarregar nossa fúria pela vida... e somos obrigadas a procurar refúgio entre as montanhas mais isoladas, para podermos nos embriagar em nossa loucura, sem a presença dos olhares de reprovação.

Queremos dançar nuas. Queremos arte, poesia. Queremos fazer amor na hora e no lugar em que sentirmos vontade. Queremos contemplar a beleza da simplicidade da vida, espremendo cada segundo de nossa existência. Queremos berrar de alegria ou cair em prantos desesperados. Queremos agir sem pudores. Queremos beber e nos drogar até cair. Queremos abraçar a terra, tomar leite na teta dos animais, queremos sentir o gozo da vida muito além da vagina escondida entre nossas pernas.

Mas se nós, bacantes, não pudéssemos buscar refúgio secreto nas montanhas, o que faríamos? Viveríamos reprimidas em sociedade? Como esses atores sociais que precisam constantemente interpretar um papel, fugindo de seus instintos, sempre reprimidos e negados? Atores que sequer assumem interpretar uma imensidade de papéis diferentes...

A sociedade é uma farsa de mau gosto, que te julga por ser e fazer exatamente o que todos gostariam, mas não têm coragem; preferem se render à censura. Nós, bacantes, preferimos cultuar o grande órgão sexual de nosso deus Baco, enquanto cantamos nuas na chuva, enquanto nos masturbamos, enquanto fazemos amor umas com as outras.

Mas se nós, bacantes, não temos refúgio... exerceríamos com ardor nossa embriaguez causada pela necessidade de amar, ou nos renderíamos ao meio social, com medo de sermos execradas, vistas como loucas? Não somos loucas. Loucos são os que nos recriminam, enquanto tentam desesperadamente driblar sua loucura interior. Eis aí o paradoxo, a maior loucura dessa imensa mentira que é a existência humana, moralista e hipócrita.

Por horror a toda essa comédia dissimulada, nós, bacantes, nos renderíamos. E viveríamos deprimidas, odiando os muros construídos com os tijolos da cultura repressora, que não permitiria que nos entregássemos à vida exatamente como gostaríamos, como precisamos. Sempre sentiríamos a sensação de que falta alguma coisa... nunca descobriríamos o que essa coisa de fato é.

E ainda assim, apesar desse grande esforço que custaria a perda de nossa sanidade (porque reprimir nosso amor pela vida, isso sim é loucura), seríamos julgadas, seríamos vistas como lascivas, promíscuas, quando nossa única razão na vida é a busca incessante pelo amor. O amor segundo sua compreensão.

O amor é uma troca, uma de suas manifestações é o sexo. Sexo despudorado, mas sexo com amor; mesmo que esse amor dure somente o momento da penetração. Nós, bacantes, queremos, precisamos ser amadas, desejadas, cultuadas, da mesma maneira que cultuamos nosso deus. Nós, bacantes, não queremos ser hostilizadas, vulgarizadas, mas se necessário mandamos seus valores e princípios morais para a puta que o pariu.

Se a sociedade é uma farsa, nós, bacantes, queremos viver nossa própria mentira, não a mentira dos outros. Com as pernas arregaçadas para que nelas penetre ar, esperma, vida. Nós, bacantes, queremos sentir o gozo da existência. Queremos ser possuídas, queremos possuir, nessa mistura de sensações que inebriam nosso permanente transe.

Não um transe que anestesie, como ocorre com tantos infelizes que se fingem satisfeitos com a medíocre existência. Mas um transe que nos liberte, que nos permita questionar a vida, mas nunca questionar nossa necessidade de satisfazer nossos desejos; que apenas são insanos por não fazerem parte dessa loucura, que é viver sob a repreensão dos próprios sentidos.

1 de ago de 2011

THE ACTIVIA TOUCH

Em primeiro lugar, quero dizer que se esse é um texto machista, fica todo o crédito para José Cuervo, autor do post e protagonista da vez. Novamente, ele presta colaboração nesse blog. Quando eu critiquei a maneira como ele escreveu, a resposta que recebi foi: “Bom, só retratei exatamente como foi. Se foi machista, sorry. Esse sou eu!”. Pois é. Ainda assim, esse sujo come uma penca de moçoilas, quase que diariamente. Vai entender... Bem, preciso admitir que a história é hilária, se me permitem dizer. Vale a pena ler até o fim, apesar das observações de péssimo gosto que esse idiota faz – que, hipocrisia à parte, são sinceras e compartilhadas por um bom número de espertinhos como ele. Ah, as partes rosas são apenas algumas pequenas observações minhas, como leitora fêmea que sou.

Chega a noite de sábado. Música alta em casa para aquecer as turbinas. Figurino impecável, perfume importado, olhos de tigre, mais uma noitada se inicia. Noite perfeita para mais uma aventura sexual (Fanfarrão). Mal sabia o que a vida reservaria para mim dessa vez. Na balada, corpos em movimento, troca de olhares, vodka na mesa, copo na mão e pimba! Aconteceu aquele beijo encaixadinho na gostosa do camarote. Pegação fervente, ignorando a antiga “peguete” que se encontrava no recinto, claramente a fim de um “flashback”, daqueles que a faziam corar as bochechas e suspirar ao amanhecer na minha cama. (Idiota)

Mas ela não estava nos planos dessa vez. Era a vez da gostosa inédita (só há uma coisa mais apreciada por um homem do que uma buceta: uma buceta diferente! – frase de minha autoria) (Babaca! mas, preciso admitir. Novidades sempre são bem-vindas). Depois de tantos pegas na balada, repleto de expectativas na hora da saída, me deparei com o inesperado. A gostosa estava com duas amigas que dormiriam em sua residência e não poderia ceder ao “sequestro” proposto. (Ah-ha, muito bem feito) Droga, e agora? Noite tão boa e finalizá-la sem uma bela cópula? Ainda mais depois de estar na “vibe” da vodka? Claro que não! Ainda há uma esperança...

Liguei para o amigo que foi dar carona para a “peguete” e pedi para que a deixasse em minha porta, pois já estava a caminho de casa para “executá-la”. Ela chegou meia hora antes de mim, afinal, ainda queria dar uns últimos amassos na gostosa inédita. (Cara, a mulher tem que estar mesmo com muita vontade de dar, para deixar de lado o mínimo de amor-próprio em função de uma fudelância total no fim da noite. Ok, não vamos julgar essa pobre coitada, que queria apenas momentos ímpares de puro prazer com um pinto qualquer). Chegando em casa, fomos logo pro que interessava. Sexo! Sem conversa, sem carinhos, só sexo. Quando ela subiu em mim, pude perceber o quanto ela precisava daquele flashback. Como rebolava! Como queria! Como comi!

Não resistindo àquele rebolado, comecei com umas palmadas e logo fui alisando o cuzinho dela e, aos poucos, colocando meu dedo. Nossa, como ela estava molhada! (Cu molhado? Suspeito isso, hein?). Comentei isso com ela, com aquela voz de safado, e ela nem respondeu. Só continuou sentando e eu com o dedo trabalhando em conjunto com o pau. A surpresa foi quando tirei o dedo. Descobri que tenho talento para Yoga, para medicina alternativa, para terapias orientais, sei lá... sei que ela disse: “Ih, acho que te sujei!”

“Porra, era o que me faltava, menstruou em cima de mim”, pensei inocentemente. Pois foi bem pior. A maldita teve o esfíncter, de alguma forma, desregulado pelos meus toques. Vazou merda! Na minha perna! Inferno! (HAUHAUHAUAHUAH AUHAUHAUAHAUHAUHAUA HAUHAH!!! Levou uma cagalhadaaaaa!!!!!!). Ela levantou-se e foi ao banheiro lavar a “cagada”, enquanto fui fazer o mesmo no outro banheiro. Voltando para o quarto, lá estava ela. Deitada, ruborizada, desconcertada, querendo morrer (Coitada... juro que fiquei com pena da moça). E eu, ainda de pau duro (santa vodka!), pensei bem e fui finalizar o serviço. Vinguei-me com aquela gozada digna do espetáculo do chafariz do Belaggio, em Las Vegas. (Mas é mesmo muita vontade... porém, o trabalho sujo - literalmente sujo, nesse caso - precisa ser finalizado) Nem quis pensar muito no assunto. Estava cheio de créditos para virar e dormir. Foi o que eu fiz. Nem “boa noite” dei, porém atingi meu objetivo de transar naquela noite (Indelicado).

Maquiavel disse com propriedade que “os fins justificam os meios”. E para isso, cagadas acontecem algumas vezes (Valeu então, fudecão linha cult). Com isso descobri uma interessante manobra, que batizei de “The Activia Touch” (!!!). Portanto, quem tem problemas de prisão de ventre, pode contratar meus serviços. Só não o farei em cima da minha cama novamente.

Um abraço e até breve.
José Cuervo.

23 de jul de 2011

Mulheres que causaram...


... beberam, se drogaram, se prostituiram ou quebraram regras sociais. FODA-SE o mundo, elas quiseram tocar fogo, viver tudo que a vida poderia dar. Quebraram a cara, os copos, a casa... mas fizeram o que queriam e são lembradas por suas obras. Acho que muitas acreditaram que a ressaca não viria, e tiveram razão! No topo da lista, a mais recente.
  1. Amy Winehouse (1983 - 2011)
  2. Anna Nicole Smith (1967 - 2007)
  3. Cássia Eller (1962 - 2001)
  4. Elis Regina (1945 - 1982)
  5. Janis Joplin (1943 - 1970)
  6. Marilyn Monroe (1926 - 1962)
  7. Billie Holiday (1915 - 1959)
  8. Carmem Miranda (1909 - 1955)
E não poderiam ficar de fora:
  • Helena de Almeida Roitman ou Heleninha (1988 - 1989 e 2010 - 2011)
  • Mona Lisa ou La Gioconda (1503 - 1507). Tenho certeza! Aquele sorrisinho não me engana...
Mais alguém?

22 de jul de 2011

Gozo


abro as pernas
gozo algumas vezes
minhas mãos satisfazem
o desejo que não sei conter

posso gemer muito alto
posso fazer qualquer um ouvir
sentir cada toque
cada curva

de meu corpo despido
de minhas pernas sempre abertas
que só sente o doce gosto
quem não tem medo

de colocar a boca
explorar com a língua
e sentir muito
muito prazer.

Pequenas fagulhas de nada com manteiga de cabra



Mimese
Eu…> soou… > EU.
E se quiser algaravia sou.
Míngua de língua num mimodrama.
Derrama tua secura na minha cama,
Que de tão plana é caixão.
Onde te deitas e esparramas.
Abro janelas ao novo vento monção,
Recebo na cara partículas de monera
Tua boca sangrou, eu bebi,
Teu gozo monospérmico engoli,
Um perdigoto gritando ouvi,
No monólogo da gosma paixão

Amor perecido
- Queria Jorge, te comprar moscatel, mas prefere os mostruários de papel, porque pastel?
- Gosto da cor do papel pardo, me lembra os dias árduos de sol no sertão.
-Olhe esses recortes, continua afogado em muçuranas e bucetas de mucamas, que vergonha.
-Enquanto respirar, prefiro as cobras e as negras chupar, na minha boca não é teu lugar.

Cena no Rio Sena
Precipito-me dizer que teu peido deve ter aroma de patchuli.
Aproveita essa tarde, passeia com Eulália a menina gralha.
Navega no teu eutrófico rio barrento.
Enquanto um coliforme meliante grita:
- QUERO MORAR UM APARTAMENTO ITINERANTE! 

Mulheres que nasceram no lugar errado


Eu acredito em vida após a morte. Não acredito que somos simples folhas soltas no universo, mas também não acho que cada um tem um destino exato a cumprir (coisa brega). Mas acho que, antes de cair por aqui, de paraquedas, podemos meio que pré-definir as coisas. O problema é que nem todo mundo tem a santa sensatez para “programar” sua existência e acaba nascendo em um lugar completamente errado. E entram em crises depressivas, ficam histéricas, sofrem de ansiedade, da porcaria toda, porque nunca se encontram em lugar algum, nunca estão satisfeitas com nada, sempre acham que falta alguma coisa. E ficam se perguntando: mas que porcaria eu estou fazendo aqui?

Sim, queridos, eu sou uma dessas que não soube se “programar”. O que não é de surpreender, já que para mim é motivo de grande sofrimento seguir premissas ditas básicas como ser organizada, ter hora marcada para viver e estabelecer compromissos à longo prazo, como se fosse possível saber se o que eu quero amanhã vai ser a mesma coisa que quero hoje. O que me conforta (eu sei que é péssimo, mas conforta sim) é saber que existem algumas pobres coitadas que sofrem do mesmo mal que eu e acabam trocando comigo suas lamentações sobre a amalgamada vida. E como também acredito na lei da atração, nada mais justo do que atrair a amizade de mulheres emocionalmente desequilibradas como eu.

Como exemplo, faço a vulgar reprodução de um diálogo que tive recentemente:
- Estou depressiva hoje, me sito mal com tudo, passei o dia meio que chorando... só de pensar que tenho que trabalhar todos os dias, eu fico mal.
- Nem me fale... se alguém me obrigasse a trabalhar com horário, dia certo, presa em algum lugar, eu teria um troço. Juro que não suportaria viver desse jeito. Acho que nascemos na sociedade errada. Deveríamos ter nascido em uma tribo indígena que não têm contato algum com os brancos, assim viveríamos nuas, preocupadas apenas com a arte e com o amor.
- Concordo.

Mas não. Nós nascemos em uma sociedade em que nos são impostas regras sociais escrotas; se tentarmos transgredi-las, podemos sofrer entre as variantes “morrer de fome” ou “ser apedrejada por gente hipócrita”, que não suporta a ideia de ver que alguém teve coragem de fazer ou falar o que ela sempre quis, mas não consegue. Confesso que minha medição de coragem está lá embaixo. Mas pelo menos eu não tenho medo de questionar a vida, as pessoas, a mim mesma.

Aí você se pergunta: será que eu também nasci no lugar errado? Bem, vamos lá... Sexo pode ser muito, mas em geral é só sexo; a vida é muita coisa para você ser obrigada a viver tão pouco; você não ligaria se pudesse sair andando nua por aí; você não se importa em berrar no meio da rua; trabalho só vale a pena se te fizer feliz, não for uma obrigação com hora marcada e foda-se se te dá dinheiro ou não... melhor, trabalhar para quê?

Você é capaz de falar coisas que nunca nem sonhou em fazer, só para provocar gente reprimida que te julga por viver; você não entende porque compromisso tem que ser sinônimo de dar satisfação incondicional de sua vida, nem porque as pessoas se preocupam tanto com a sua exsitência (que estão sempre criticando), em vez de tomarem conta da vida delas; você nunca se enquadra em lugar nenhum, sempre se acha um ponto solto em todos os buracos que se enfia. E o pior... você anda tão relapsa com tudo, que em geral, simplesmente nem se importa mais.

Sinto informar, minha querida, mas se concordou comigo, você também nasceu no lugar errado. Mas não se faça de vítima por isso, odeio autopiedade. A culpa é sua, que não tem o mínimo senso de direção para se guiar. E nem estou insistindo naquele papo metafísico com o qual iniciei esse texto. Escolhas podem ser feitas em todos os segundos de nossa existência. Bem, detectar o problema já é um belo primeiro passo.

E se bater o desespero, pode fazer como eu. Encha a cara sempre que possível, procure um psiquiatra que te receite remedinhos contra ansiedade, procure um terapeuta que ature as divagações de sua cabecinha dodói e, o mais importante: agende uma viagem de final de semana em uma casa no campo, bem afastada da civilização, fique nua no meio do mato, faça um ritual naturalista à mãe natureza, depois mergulhe no rio, do jeitinho que veio ao mundo. Essas são minhas resoluções para as próximas duas semanas em que ainda habitarei essa sociedade capitalista-repressora-escrota. Fica a dica.

19 de jul de 2011

Brigadeiro


Porcaria de brigadeiro. Eu não queria comer, mas sem perceber, vi a panela ali, cheia até a borda. Queimei a língua, que está bem ardida, mas é bom lembrar que saboreei cada colherada com muito gosto. Pena que muito antes de saciar minha vontade, o brigadeiro acabou.

Sobraram apenas as raspas no fundo da panela. Elas são as piores. Porque mesmo não podendo mais sentir o doce, eu insisto em tentar pegar os pedacinhos que sobraram. Restos que apenas me deixam mais aguada, instigam mais meu paladar. Não que eu não queira lavar a panela. É que não sei bem como jogar água e depois passar sabão.

E o que é que vou fazer com uma panela limpa? Tentar enxergar meu reflexo lá no fundo? O inox sempre deixa tudo tão embaçado... Agora não sei se o brigadeiro era mesmo tão bom, ou se meu desejo de comer algo que não sei preparar fez com que ficasse ainda mais delicioso.

O maior problema é que não sei me controlar; mesmo sabendo que engorda, que chocolate demais não faz bem. É tão difícil ter brigadeiro em minha panela, que quando aparece, quero comer tudo de uma vez. E que se dane se vou passar mal depois.

Pena que nunca fiquei satisfeita. E sempre acabo reclamando da raspinha que fica grudada lá no fundo da panela, que mesmo esfregando com muito detergente, dá um trabalho danado para limpar. Ainda assim, não consigo deixar de gostar de brigadeiro. Pena que não sei cozinhar.

15 de jul de 2011

Vômito


Com frequência meus pensamentos vão mais longe do que eu gostaria. E por se perderem por aí, me prendem. E preciso escrever, preciso de cada uma dessas linhas para me libertar, procuro em cada parágrafo uma redenção. Uma redenção do que sinto, sob a confissão velada nesses signos: as palavras.

Mas às vezes, meus pensamentos – lembranças passadas ou invenções futuras – não me deixam em paz. E eu começo a temer por recordar demais, sonhar demais e viver de menos. E para me livrar desse mundo que invento, que me escondo, eu me enveneno com doses e mais doses do que poderia ter sido e não foi. Do que nunca vai ser.

Preciso reviver cada mágoa, cada esperança perdida, remexer cada ferida cicatrizada, para me libertar da prisão de meus pensamentos. Que me fazem idealizar demais. E sofrer demais, ao constatar que a realidade em nada condiz com o devaneio.

Com o tempo aprendi a me enganar, fingindo que apesar da fantasia existir, não existe expectativa em mim; é só um mundo inventado para passar o tempo. E faço da mentira a maior de todas as ilusões. E coloco pedra sobre pedra na construção de um muro repleto de dores abafadas, gritos surdos, que o ressentimento não me deixa escutar.

Mesmo tentando esconder, ele está sempre ali, presente. Pode estar atrás de uma rocha, ou me espreitando sobre uma árvore. E desesperado para se fazer enxergar, surge do nada, sem que eu queira. Cria forma nessas gotas de tinta que saem da minha caneta, no alto ruído de minha boca com minhas risadas, na água salgada que brota dos meus olhos – não importa como se apresente: rende-se como a mais pura manifestação do que não sei guardar em meu coração.

E se me engano ou não com meus discursos contraditórios, mas sempre sinceros – só me resta escrever como consolo. Mas não quero dizer que apenas escrevo e não vivo. Mesmo não me sentindo viva, mesmo tendo em mim um milhão de sentimentos que mal sei controlar. Então diga que vivi. Só que amei pouco. Mas amo tudo demais ao mesmo tempo. Será que ainda posso considerar amor, os amores que morreram?

Diga que não tenho motivos para chorar, mas procuro uma razão. Só para dizer que eu sinto. Diga que eu preciso aceitar que não posso ter tudo o que quero – mas que preciso aprender a querer alguma coisa de verdade. Algo que me faça deixar de ser só mais um pedaço de poeira solto no universo. Que me faça desprender das raízes que finquei no solo.

Mas diga que essa coisa depende só de mim, algo que me dê certeza. Então não me venha com amor. Esse depende de um segundo. E quando nasce o duplo, a certeza morre. A extensão de mim mesma, que sou muitas em uma só, já é confusa o suficiente para me fazer perder a cabeça. Definitivas são apenas as palavras que escrevo – que não vão expressar o que sinto agora, mas apenas um pequeno pedaço do que pensei no minuto (aquele único minuto que nunca mais vai se repetir) em que escrevi.

Então agora me diga que não há mais nada a dizer, a escrever. Que minha mente ficou vazia, apesar de ainda sentir o coração pulsar, como se queimasse. Diga que não preciso me envenenar por nunca ter nada para dar; nem ter ninguém que possa receber. Só não me diga que eu preciso de uma pergunta, qualquer pergunta que seja, solta entre tantas dúvidas minhas. Porque, no fundo, eu sei que a resposta é apenas uma: sempre é amor.