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25 de fev de 2011

Feridas


Certas dores têm o poder de sugar o sentido da existência. E o pouco que resta fica jogado em um canto qualquer, sem referência alguma. Há quem fique vagando nesse não-lugar, rastejando no árido, sem perceber a pele abrir com o atrito do corpo no chão áspero. Não deixa as feridas cicatrizarem, apenas inflamam, criam pus, em um círculo vicioso. Quando pensa que sarou, fica remoendo, sangrando a própria doença. Sem perceber que caso caminhasse, poderia chegar a algum outro lugar. Qualquer lugar distante desse lento perambular que apodrece a carne. E quando um odor pútrido exala do machucado há tempos aberto, chora - e muito - uma dor que insiste em sentir, mas que talvez nem mais sinta. Mente para si, dizendo que esse câncer é só um corte, finge que não sabe e acredita poder continuar... enquanto seus restos se dilaceram cada vez mais, mais e mais.

Foi preciso alguém me olhar nos olhos e dizer: “Você foi muito magoada, não foi? Por que tanto rancor? Não diga para mim que não tem rancor em seu coração, se eu estou vendo rancor agora, em seus olhos. Mas olha bem para mim. A vida segue. Tudo nessa vida passa. E você vai continuar em frente. Senão, nada anda”.

Aceitei meu autoflagelo e chorei, solucei – não a chaga, mas toda a amargura reprimida. Apenas quando percebi que estava há tanto tempo quase parada, estirada para o nada, consegui levantar. Quando caminhei – para qualquer sentido, não importa qual -, ficou mais fácil me afastar do lugar em que caí. Não sei por quais estradas tenho andado, mas encontrei em um canto um pedaço de paz.

Em mim.

24 de fev de 2011

Erythroxylum coca


Kirchner-Ernst-Ludwig

III
A “Razão” na Filosofia
3.


- E que finos instrumentos de observação temos em nossos sentidos! Esse nariz, por exemplo, do qual nenhum filósofo ainda falou com respeito e gratidão, é, por ora, o mais delicado instrumentos à nossa disposição: ele pode constatar diferenças mínimas de movimento, que nem mesmo o espectroscópio constata. Nos possuímos ciência, hoje, exatamente na medida em que resolvemos aceitar o testemunho dos sentidos – em que aprendemos a ainda aguçá-los, armá-los, pensá-los até o fim. O restante é aborto e ciência-ainda-não: isto é, metafísica, teologia, psicologia, teoria do conhecimento. Ou ciência formal, teoria dos signos: como a lógica e essa lógica aplicada que é a matemática. Nelas a realidade não aparece, nem mesmo como problema; e tampouco a questão de que valor tem uma tal convenção de signos como a lógica.


Friedrich Nietzsche (1844-1900), Crepúsculo dos Ídolos
Tradução: Paulo César de Souza

23 de fev de 2011

Historie d'O (1975)


Ele veio a mim num sonho que tinha tido, numa oca perto do Rio Perequê. 
Disse que tinha duas máximas que precisava deixar como herança e não tinha para quem, era solitário.
Me achou dormindo em profundo êxtase de ostra no mar. O concreto me abraçava querendo engendrar pérolas. Chegou no meu ouvido e disse com voz de vento cruviana:  "Não seja uma pessoa superficial e não babe o baseado". 

Foi embora, nem vi seu rosto, mas sei que ele tinha uma aparência furta-cor. 


21 de fev de 2011

Cultura do dinheiro


Em uma de minhas crises existenciais geradas pelo tédio comum que paira sobre a sociedade industrializada, conectada e consumista do século XXI, optei por tomar uma medida que me distanciasse de um dos primeiros estágios de decadência humana: em vez de me debulhar em rios e rios de lágrimas, lamentando uma vida insípida, injusta e cruel, resolvi estabelecer metas que devem ser cumpridas nesse ano de 2011. O choque veio quando, depois de decidir o que posso fazer, digitar no word e imprimir com letras grandes e coloridas, percebi que praticamente tudo o que eu queria envolvia ele: O DINHEIRO.

Não pensem que vou iniciar aqui um desses discursozinhos socialistas-moralistas que repudiam impulsos consumistas, comuns a boa parcela de indivíduos que conhecemos (aposto que você faz parte desse não tão seleto e admirável grupo, confesse). Não, não. A questão que levanto aqui é outra. Afinal, por onde andam nossos valores? Vocês já pararam para pensar que tudo, mas tudo mesmo, se resume a esse pedacinho de papel, o dinheiro? Mas é claro que já. Não há senso comum que discorde. Mas me assustou a percepção de que o que acredito ser o melhor caminho para meu equilíbrio mental e espiritual, esteja em grande parte relacionado ao ganho material.

Quantas pessoas estacionam suas vidas em certo ponto, porque simplesmente não abandonam o pensamento “quando eu tiver dinheiro, eu vou fazer...”. E, no fim das contas, convenhamos, acabam fazendo porcaria nenhuma. Nossos desejos foram programados de tal forma para a necessidade do ter, do exibir, do parecer, que o ser – e Guy Debord vai concordar comigo (pelo menos essa é minha leitura), foi para o espaço tentar a sorte em outra galáxia.

Então, o que farei? Largo tudo e vou vender coco na praia? Largo tudo e vou para o meio do mato? Viro apresentadora do telejornal da Globo? Crio um movimento totalmente alternativo, convoco meia dúzia de malucos e saio rasgando dinheiro por aí? Por favor, alguém me diga. Não sei se ando muito desacreditada na humanidade ou em mim mesma. E se me dão licença, enquanto respostas não chegam, farei agora o que deveria ter sido feito antes mesmo de começar a escrever esse texto. Empregarei meu comum pragmatismo para resolver questões pessoais.

É isso mesmo. Vou ao shopping satisfazer a necessidade patológica que possuo do uso de cartão de crédito. Essa é a melhor maneira que encontro para suportar tantos questionamentos que alfinetam minha cabeça. Se nem isso me acalmar, apelo para uma dessas pílulas mágicas, que concedem verdadeiros milagres às mentes de natureza contestadora. Com qualquer trocado e um atestado médico falso, a gente compra a felicidade e a paz de espírito na farmácia mais próxima, garantindo profundas e serenas noites de sono.

Pensando melhor, acho que vou jogar a porcaria daquela lista fora. Muito trabalho.

20 de fev de 2011

A poesia do brega



Ando navegando nos dejetos do limbo criativo. Há tempos não escrevo um texto que preste, salvo as matérias para a entidade que devidamente paga meu salário todo mês (com atrasos, é claro). Fato que, convenhamos, é um problema, já que minha profissão tem me causado sérias crises existenciais. Mas essa não é a questão sobre a qual divagaremos hoje. Falaremos sobre minha forte tendência em escrever uma caralhada de breguices quando não tenho mais o que fazer.

Vocês mesmos já tiveram o prazer de degustar demasiados exemplos por aqui. Uns textos cafonas, que denotam minha total falta de sensibilidade quando o objetivo é expressar a amalgamada trajetória da espécie humana. Mas, muito francamente, parei para refletir e me deparei com a seguinte conclusão: por que, ora bolas, ficarei refreando meus impulsos bregas? Qual é o problema de escrever textos poéticos que surgem no auge de rompantes espumantes do meu acarinhado e deveras sofrido coração?

Então, é essa porra mesmo. Se me permitem, vou me entregar a esse mar de sensações, vou expressar toda a cafonice encubada, latejando para se desprender de meu ser; sem pudores, vou disponibilizar a merda toda aqui. Bem, eu já publicava boa parte, mas a diferença é que, agora, farei-lo-ei-lô-lô sem medo de ser feliz. Vou deixar as ondas mágicas da paixão se materializarem em minhas linhas. Preparem-se, audazes leitores. A qualquer momento, posso postar uma cafonice mais profunda do que o esconderijo do mais cândido tesouro enterrado no mar do amor.

Ao que, convenhamos, a verdadeira poesia está no brega.


Ps: dedico esse post ao meu muso inspirador, que com toda sua cafonice aguda, abriu meus olhos para a breguice adormecida em mim. Tagiroska com adoçante, obrigada por tudo.

17 de fev de 2011

O dia em que eu não existi

Peguei minha roupa e perdi meu corpo, enquanto a fruta que comia caía no chão. Gritava sem voz entre surdos que andavam a esmo, chutando para longe minha existência. Chorava um rio amargo e sujo, enquanto beijava a sombra de um amor que já não estava mais.

Nesse dia, o verão teve céu branco. Nem azul, nem cinza. O céu estava branco, e eu estava vermelha de tanto gritar para ninguém. A vista se perdia entre os planos também perdidos. No dia em que eu não existi, eu me senti miseravelmente viva.

14 de fev de 2011

raízes


Todo dia era regado um não sei o quê no jardim. Crescia disforme, ninguém se importava. Destoava da paisagem, como se não fosse dali. Dos olhares, ria sozinha. Precisava apenas de água para crescer.

Mas o líquido já não era mais suficiente para manter a vida. A terra prendia tanto, que às vezes ensaiava chorar. Só que o choro era ato muito humano. Não chorava.
Sonhava apenas em sair correndo por aí. E quando correr passou a ser pouco, sonhou em voar. Mas o sonho adoece quando a realidade fica estagnada.

Apenas suas estranhas raízes, desengonçadas, se alongavam, aumentavam, na proporção de uma tristeza sem cor. Entranhavam em meio a terra, se acomodavam nos espaços que inventavam.
Se saísse dali, morreria. Continuar ali já era a morte, uma lenta tortura regada todos os dias.

Trocou uma não-vida por uma vida de breve fim. Desprendeu-se do solo. Via suas disformes folhas secarem. Nem podia chorar. Sentia fome, sentia sede. Mas sempre que ventava, voava por aí. Vivia, sempre, na esperança de um vento qualquer.

Durou poucos dias. Mas nesses dias foi feliz.

12 de fev de 2011

Noite da Condessa


Foi tão rico quanto o belo...

A gente se olhou e disse:
- Bebe na minha taça!
- Minha cabeça tá à beça
- Minha alegria é o ócio,
- Nossa paz é de dentro.

Dentro do buraco
que úmido obedece
o sacramento e o momento.
E nos abraçamos, agradecendo!