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25 de nov de 2013

LULU chegou



Em uma conversa cotidiana, um amigo relatou um caso particular. Hetero-de-pinto-voltado-para-fêmeas, foi se aventurar em uma dessas boates cariocas gays caréssimas, para aproveitar o esquemazinho que arranjou em um camarote. Porém, ele não deixou de narrar a agonia que sentiu toda vez que precisava ir ao banheiro. Era constantemente assediado por homens, o que causou nele um grande incômodo. Como se gostar de bater pintinho com pintinho fosse sinônimo de um exemplar-tarado-subversivo.  

“Então quer dizer que pela primeira vez na sua vida você teve a sensação de saber como é ser mulher? Sentiu durante algumas horinhas o que nós mulheres vivenciamos o tempo todo?”. Visivelmente ele ficou chocado com a minha pergunta. Provavelmente porque, pela primeira na vida, ele se viu obrigado a refletir sobre. Claro que o meu questionamento causou no mínimo um formigamentozinho anal. “Eu não senti nada como é ser mulher!”, bradou, incomodado pela possibilidade de se ver comparado ao tal “sexo frágil”.

Ainda hoje uma amiga postou em seu facebook as peripécias de duas mulheres sozinhas que se aventuram livremente em uma caminhada à noite, em um dos mais tradicionais bairros da zona norte carioca. Ela postou algo como “fomos abordadas por dois homens dentro de um carro, que nos chamaram de gostosas. Como não olhamos, eles gritaram ‘piranhas’ e foram embora”. Um recado para os machões-de-pinto-ereto que acham graça nessa brincadeirinha, por mais elogiosa que pareça ser: para qualquer mulher, ser abordada no meio da rua por um carro, à noite, já é NO MÍNIMO motivo de desespero. Acho que eu nem preciso explicar o porquê.

Ontem eu estava em uma festa de aniversário, fazendo o que sei fazer de melhor. Tomando minha cerveja, dançando muito, rindo mais ainda. E ouvi de dois amigos o que eu ouço com uma frequência maior do que eu gostaria: “Se a gente não te conhecesse, acharíamos você uma piranha!”. Não que me incomode o status “piranha”. Dar é muito bom e faz bem para a pele. O que me incomoda e associarem minha espontaneidade a qualquer tipo de abertura sexual. Como se uma mulher que bebe, dança e ri fosse sinônimo de uma mulher que está doidinha para dar.

Dizem que a vida é muito mais fácil para mulheres, principalmente se forem bonitas, porque elas conseguem tudo o que querem. Não, não é, principalmente se você trabalha rodeada por homens. Você ouve cantadas “inocentes” todos os dias. Você ouve piadinhas machistas que, em sua maioria, você sequer tem vontade de comentar, tamanha a imbecilidade das pessoas que as pronunciam. Muitas vezes, sua capacidade profissional é questionada em detrimento do seu rostinho bonito. Talvez porque respeito e reconhecimento sejam apenas privilégios relegados a homens.

Uma propaganda da Gillette causou indignação em muitos machos, por fazerem com que se sentissem apenas um objeto que merece ser subjugado por ser “peludo”. A mesma propaganda foi parar no Conar. Sobre o caso, li um comentário que me fez sentir, digamos, realizada pelo reconhecimento da espécie-macho-de-polegar-opositor: “Estamos sentindo pelo primeira vez o que as mulheres sentem a vida toda”.

Sim, porque nós mulheres crescemos sendo violentadas pelas propagandas que nos ensinam a sermos princesas belas e intocadas, com o cabelo perfeito, a pele perfeita, o corpo perfeito e, é claro, sem pelos. Não me lembro de meninas cabeludas fazendo um motim por se sentirem ofendidas com propagandas de produtos de depilação. Deve ser porque meninas cabeludas são “porcas”. Não foi isso que você cresceu ouvindo?

Vem, Lulu, vem
Mas toda essa lenga de lenga de exatos sete parágrafos foi para falar sobre o novo aplicativo que virou a onda do momento. O tal do Lulu. Nele, mulheres podem avaliar os homens, em escala que vai desde ao bom ou mau comportamento do moçoilo, até a performance do cara na cama, com direito à descrição do tamanho do membro peniano do rapaz. Vi várias amigas comentando o quanto o app é engraçado. Tudo muito legal, tudo muito bonito, não é mesmo?

Pois é. Não, não é. “Mas os homens sempre fizeram isso com a gente”. Foda-se. Sou politicamente correta? Judge me. Não tive coragem de instalar o aplicativo, porque não consigo me imaginar vendo amigos, parentes, pessoas queridas sendo avaliadas e servindo de chacota para meninas que acham divertido humilhar os outros ou usar a ferramenta como meio de vingancinha particular.

E não me venham falar da “função social” do aplicativo, que seria alertar as pobres meninas-virgens sobre o carinha que elas estão interessadas. Pelo o que ando lendo por aí, não é bem para isso que o programa está servindo. E sim, estou falando sobre algo o qual não tive contato direto, já que eu não baixei o Lulu. Aos incomodados pela minha "total falta de ética jornalística", bem... lamento.

Que mulheres são essas que clamam por igualdade e aproveitam a primeira oportunidade para fazer com os outros exatamente o que sofreram durante toda uma história de violência, de humilhação, de usurpação de seus direitos mais básicos? Será que essas mesmas mulheres que encaram apenas com uma “brincadeira” o aplicativo achariam a mesma graça se fosse criado esse app para os homens? Afinal, até quando o discurso “mas foi só uma brincadeira” vai servir como justificativa para uma enxurrada de ofensas e legitimação de preconceitos?

O mais interessante é que os homens simplesmente são obrigados a fazer parte do aplicativo. Se eles quiserem a exclusão, devem acessar um link informando. Mas deixem-me pensar, não deveria ser o contrário?

Não sou feminista. Não gosto de definições. Não gosto de sinalizar religião, ideologia, partido político, ou o que quer que seja, por ser muito plural e acreditar que certas nomenclaturas me limitem ao infinito que posso ser e pensar. Gosto de pensar em mim (e não que eu esteja correta em minha pretensão) como alguém que busca avaliar, antes de simplesmente escolher um lado e defender desse lado todos os seus interesses, indiscriminadamente, com unhas e dentes. Se você acha que isso faz de mim uma descrente sem qualquer personalidade ou conhecimento suficiente para defender uma causa, que seja.

Mas tenho certeza de que mesmo as feministas mais ferrenhas não desejariam esse tipo de feminismo, um feminismo que exclua, que ofenda, que seja competitivo em uma eterna guerra dos sexos, que tem como único fundamento provar quem é o melhor, meninos de bilau ou meninas de pepeca. Tenho certeza de que essas feministas querem uma sociedade em que mulheres sejam reconhecidas pelo seu valor, sem serem subjugadas pelo seu sexo. Pelo menos é nisso em que acredito. E as que não concordam, divirtam-se com o Lulu. Mas não me venham reclamar quando a pepeca que estiver para jogo for a sua. 

2 comentários:

  1. Bem argumentado, moça. Infelizmente, nós homens ainda achamos que invadir a privacidade é sinal de potência. E que ela deve ser afirmada a cada momento. Quanto ao Lulu, vc. está certa. Se serve para reproduzir um comportamento juvenil, de chacota e invasão de privacidade, não serve. Estou divulgando no Face. Beijão. Ricardo Mainieri

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  2. Obrigada pela visita, Ricardo! Vc, como sempre, nos brindando nesse blog! Um beijão!

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Áhh, que fofo você comentar!!!