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28 de out de 2010

Ditadura consentida


Deve ser duro para aqueles que viveram durante a ditadura militar e tentaram lutar contra o sistema político da época, relembrar tempos tão sombrios; sofreram torturas inimagináveis nos frios e úmidos porões; dormiram ouvindo gritos desesperados dos amigos, pessoas queridas, sem poder estender a mão para ajudar, porque sequer se aguentavam. Suportaram (ou não) atos humanos – nada de dizer desumano, apenas o homem é capaz de cometer tantas atrocidades contra seus semelhantes. Deve ser duro ter a sensação de impotência e ver as esperanças desmoronarem, quando havia tantos sonhos, tantos planos, tanta expectativa de um futuro melhor, um futuro em que a liberdade seria uma possibilidade.

Deve ser muito duro para mães, filhos e filhas, esposas, maridos, não saberem até hoje o que de fato aconteceu com aqueles que tanto amaram em vida. Deve doer não ter nunca recebido uma resposta, ao menos uma palavra de consolo garantindo que o sofrimento já passou, tudo acabou, descansa agora em um lugar melhor. Mas essas palavras não foram ouvidas, famílias inteiras se mantiveram durante muito tempo agarradas na desesperada esperança de que alguma resposta chegasse. Mas nunca chegou. Deve ter sido duro. Talvez ainda seja.

Também deve ser muito duro para os pobres diabos que ficaram e sofreram em nome de uma ideologia besta, sem ter perdido todo o romantismo que corrói mentes muito cegas e teimosas, perceber a que ponto a sociedade chegou. Bem longe da ilha Utopia, como descreveu Thomas More, e como por incrível que pareça, alimentou alguns muitos corações inocentes. A sociedade parece ter estacionado na ilha da Ilusão Democrática, local onde os cidadãos são bombardeados a todo o momento por informações tão comuns, tão iguais, que não vêem a mínima necessidade de sair da mesmice e conhecer novas águas. São engolidos por uma cultura que insere valores como o narcisismo, propaga a alienação e o conformismo, vendendo tudo isso como progresso social sustentável.

É muito fácil simplesmente culpar os governantes pelo atual total estado de torpor humano, quando ninguém é capaz de levantar a voz para de fato contestar, para dar a cara à tapa. Os poucos que se prestam a esse papel, ou são condenados por não conseguirem resultados (dos parasitas que apenas sugam seus esforços, sem dar nenhum apoio além da cobrança) ou são apontados como anarquistas, vagabundos, baderneiros. O que impede a mobilização não é o medo ou qualquer tipo de intimidação direta dos órgãos que detém o poder. Simplesmente as pessoas são doutrinadas a se deixarem levar, sem qualquer questionamento.

São incapazes de ver sua mediocridade, seu total descaso e responsabilidade pelo limbo em que se encontram. E como o ser humano não tem competência para admitir os próprios fracassos, ele arranja alguém em quem colocar a culpa. E culpa aqueles que eles mesmos colocaram no poder, sem adotar para essa escolha critério algum. Afinal, o Collor está no senado. Garotinho foi eleito deputado federal no Rio de Janeiro e Roriz teve o maior número de votos para o cargo de governador do Distrito Federal, onde se localiza a capital da nação. Mas não posso ser tão injusta com esses senhores. Da mesma forma que o ser humano não aceita seus próprios fracassos, ele também não desperdiça a oportunidade de exercer poder e usufruir os frutos que esse poder dá.

Quando a impunidade é latente e a população é estúpida, não há governante que não tire proveito. O bicho homem tem dessas coisas. E no final das contas, não sei se tudo mudou demais ou se as coisas continuam na mesma. Ativistas saíram dos porões da ditadura, para que o cidadão comum pudesse mergulhar na escuridão do total descaso, desinteresse e alienação, decompondo-se por lá mesmo, sem perceber o cheiro pútrido que exala de suas carnes. Já os detentores do poder descobriram uma maneira muito mais fácil e divertida de se manterem no Olimpo. Que a ignorância é necessária, todo mundo sempre soube. A sacada de mestre é quando o excesso de informação torna a ignorância uma opção. Mas não culpemos a tecnologia. A culpa é nossa mesmo.

Um comentário:

  1. Nasci na época da Ditadura. Quando estudante secundarista me vi em meio a uma manifestação dos estudantes contra a inauguração de uma praça, aqui em Porto Alegre, que se chamaria Jorge Videla, célebre ditador argentino.
    Pude sentir o gás lacrimogêneo estourando por todos os lados e a polícia avançar com seus cavalos e escudos.
    Foi meu batismo. Depois disso, nunca mais abandonei minha opção de esquerda. Não apanhei, nem fui torturado, mas senti a discriminação, a chance perdida no trabalho, a arrogância dos bem-nascidos em seus clubes & carros.
    Infelizmente, nos anos noventa, um amortecimento moral e ideológico tomou conta da juventude.
    A música era só a dançante ou diversionista, a literatura era de consumo fast-food, o teatro o protagonizado por atores globais.
    Além da crise de inserção intelectual, uma certa crise de espiritualidade tomou conta da massa.
    Desorganizados, com informações dirigidas e superficiais, este pessoal só pode tender para o espectro do centro e da direita.
    Triste tudo isso, mas real.
    Como digo em um poema de nome Game over: "bati às portas/da utopia//do outro lado/ninguém/veio atender."

    Beijão.

    Ricardo Mainieri

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Áhh, que fofo você comentar!!!