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2 de mai de 2011

Simplesmente Shelly


Shelly Dúbia Floconetti. Tinha a mania irritante de fazer a mesma pergunta para todos os professores, coordenadores e afins que encontrasse nos corredores da faculdade: “Mas, afinal, o que é jornalismo?”. Nem Carlos Heitor Cony escapou de tal indagação. No quarto período, ele parecia ainda não ter recebido resposta que satisfizesse sua aguçada curiosidade.

Quando ficava bêbado, inventava de falar um francês ininteligível. E usava artimanhas pouco sedutoras – porém muito sexys – para envolver os meros mortais que seu nível etílico julgasse interessantes. Homens, mulheres, não importava o sexo. Diz-se ter deixado os prazeres terrenos em total estado de pureza virginal. Não sabia o que queria. Eu sempre dizia que a Shelly era uma planta. Acho que ele só queria ser amado.

Dava umas gargalhadas muito altas, dignas do sorriso lindo que tinha. Seus cabelos Á La Vanessa da Mata e seu corpo coberto de pele flácida – natural de quem havia perdido quase 100 quilos após uma cirurgia de redução de estômago - emprestavam a essa ilustre figura uma aparência tão peculiar quanto sua essência. Chamava atenção, digno da diva negra que era. Tinha uma sonora gagueira, que dava um ar sensual ao perfeito personagem que ele criava e recriava de si mesmo, todos os dias.

Tinha inclinação para arte. Fazia críticas teatrais, e hoje lamento ter recusado boa parte dos convites que recebi dele para assistir peças que julgo serem de bom gosto. Eu sempre pensava que teria muitas outras oportunidades para recuperar o dia perdido. Não difícil incorporava musas da música, nos fazendo chorar de rir com suas apresentações performáticas e improvisadas para seleto grupo de amigos. É preciso dizer que Shelly foi um talento pouco aproveitado, a humanidade não sabe a célebre veia artística que perdeu.

Perdemos daqui, ganharam de lá. Agora Shelly dá suas cabeladas no outro lado. Partiu dessa para a melhor. Lembro que no dia do enterro, Caipirinha da Silva disse chorando, enquanto olhava para o túmulo, algo que não saiu da minha cabeça. “Isso não tem nada a ver com ele”. Mas todas as histórias, independente de seus protagonistas, têm sempre o mesmo final. Todo mundo vai morrer um dia. A verdade – pelo menos a minha verdade – é que tudo na vida tem seu tempo. Há um tempo certo para cada um. Seja para nascer, para acordar, para viver.

Para a Shelly, esse negócio de partir foi uma boa. Aqui embaixo é careta demais, mesquinho demais, para um espírito tão complexo e ao mesmo tempo tão simples como o dele. É por isso que mesmo quando bate uma saudade, eu nunca, nunca lembro com tristeza. Apenas imagino a Shelly com seu bloquinho de anotações na mão, passeando pelo Além, perguntando para todo mundo – sem dar alívio nem mesmo para as pobres almas penadas, perdidas por aí: “Mas, afinal, o que é a morte?”.

Um comentário:

Áhh, que fofo você comentar!!!